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O “cara” do “cara”

Lula: o "cara" do "cara"
Em um comício realizado nesta quarta-feira, na Bahia, Lula proferiu mais uma de suas pérolas. Segundo o comentarista Carlos Sardemberg, na Rádio CBN, ele teria dito textualmente o seguinte:

– Obama falou que eu era o “cara” há dois anos e nem sabia das pesquisas de popularidade que estão saindo agora. Se ele soubesse iria falar: não é que este “cara” não é o “cara” do “cara”!!!

Vejam a que ponto chegamos. Como se não bastasse o absurdo do presidente participar de comícios, descumprir as leis, desafiar as instituições democráticas, ainda temos que suportar o “cara” se elevar ao quadrado em mais uma corriqueira seção de autoglorificação.

Como continuo sem tempo (e sem saco para escrever), vou postar aqui uma boa entrevista publicada na Veja sobre este personagem chamado Lula, às vésperas de sua sonhada eleição plebicitária.

Lula não suporta críticas: Atrapalharam o seu personagem

Revista Veja ed. 2184

0 filósofo Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Unicamp, notabilizou-se por ser um dos primeiros intelectuais brasileiros a apontar os desvios autoritários do governo Lula. Na semana passada, ele recebeu VEJA em sua casa, em São Paulo, e concedeu a entrevista que se segue, em que fala com a coragem e a lucidez costumeiras sobre liberdade de imprensa, petismo e autoritarismo.

A que o senhor atribui os ataques do governo à liberdade de imprensa? Nos últimos anos, o presidente Lula se acostumou a não ser fiscalizado. Os parlamentares, como só pensam em receber recursos do Executivo, abriram mão de sua função de vigiar o governo. 0 Tribunal de Contas da União tentou assumir a função, mas foi silenciado. 0 Ministério Público Federal, inexplicavelmente, desistiu de investigar. A Polícia Federal está sob controle. Nesse cenário, a única fiscalização sobre o governo é feita pela imprensa. Por isso, a preocupação em controlá-la.

O exercício da fiscalização é o que mais incomoda o governo? Eu gosto muito da figura criada pelo alemão Erich Auerbach, no livro Mlmesis: a realidade é um imenso palco com inúmeras cenas se desenrolando. 0 que faz o propagandista? Escolhe uma que lhe interesse, joga o holofote sobre ela e deixa as demais na sombra. 0 que o espectador está vendo é real. Mas alerta Auerbach: “Da realidade faz parte toda a verdade”. Ou seja, para que aquela cena específica tenha seu real significado, seria preciso iluminar todas as outras cenas também. Lula diz: “A economia vai bem”, e ilumina um determinado aspecto da economia. Os dados são verdadeiros, mas essa não é toda a realidade. Lula se irrita com a imprensa, porque ela coloca holofotes sobre cenas que ele gostaria de manter escondidas, na sombra. 0 stalinismo fazia isso quando apagava a imagem de Trotsky de fotografias históricas. 0 ideal do pensamento autoritário é este: tirar da foto aquilo que lhe é desagradável. Lula quer tirar da foto as denúncias de conupção em seu governo.

De onde viria esse pensamento? Lula nunca foi um estudioso das teorias de esquerda… Isso vem desde seus tempos de sindicalista, quando mobilizava massas. Não é um conhecimento ao modo da esquerda clássica, que passaria pelo estudo da obra do italiano Antonio Gramsci ou da prática do revolucionário russo Lenin. É um conhecimento intuitivo. Digo isso porque, quando ele encontra resistências na imprensa, considera aquilo um desserviço direto à sua personalidade. Nesse ponto, ele está mais próximo dos caudilhos sul-americanos. Todos, como o argentino Juan Perón, sabiam muito bem fazer propaganda do personagem que encarnavam. Falavam com as massas criando imagens, símbolos, figurações. Eis a razão pela qual Lula não suporta ser criticado: atrapalha o seu personagem. Qualquer um que lhe faça criticas passa a ser visto como inimigo.

Esse fenômeno já ocorreu antes no Brasil? Sim, o presidencialismo brasileiro está repleto de personagens messiânicos que viviam de propaganda: Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Fernando Collor e, agora, Luiz Inácio Lula da Silva. Eles conseguiram descer fundo na consciência popular com ajuda de muita publicidade. Getúlio é lembrado até hoje como “pai dos pobres”, porque criou um órgão chamado DIR o Departamento de Imprensa e Propaganda, que organizou uma campanha altamente competente de persuasão de massas. Jânio e Collor não conseguiram atingir esse patamar. Lula tenta seguir o caminho getulista.

Reiteradamente, o governo organiza “conselhos nacionais” para debater a liberdade de imprensa e as comunicações. Quão legítimos eles são? Esses conselhos não passam de grupos organizados pelo governo petista para tratar de legitimar seus pontos de vista sobre temas específicos. Eles não têm nada de democrático, não representam a sociedade. São instrumentos criados e manobrados pelo PT para pressionar as instituições.

Os petistas têm vociferado, nas últimas semanas, contra o que chamam de “partido da mídia golpista”, que abarcaria toda a grande imprensa. A que se deve esse discurso? É uma questão que merece reflexão. Em primeiro lugar, a imprensa como monobloco não existe. Ela tem várias tendências e facetas. Por outro lado, a relação de uma revista ou de um jornal com seus leitores não é a mesma de um partido com seus filiados, isso é óbvio. Portanto, ao contrário do que diz Lula, a imprensa não é um partido e não funciona como tal. O “partido da mídia”, que ele costuma citar, é uma invenção do PT. É um ente que só existe na propaganda petista. O que há de comum entre VEJA e Globo, por exemplo? Quase nada. São interesses diferentes, tanto do ponto de vista comercial quanto do estratégico. Quando o PT e o Lula dizem que existe esta entidade, a “mídia golpista”, e que ela forma um partido, isso não passa de uma construção mental.

Até que ponto a estratégia petista de atacar a imprensa põe em risco a democracia? Se nós tivermos de perguntar ao PT o que podemos escrever, acabou a liberdade de expressão e, com ela, a democracia. Uma coisa semelhante ocorreu nesta semana no México: um jornal que fica em uma área dominada por quadrilhas de narcotraficantes, em Chihuahua, desistiu de ser independente porque seus jornalistas estavam sendo assassinados. Em sua primeira página, perguntou aos traficantes o que eles gostariam de ver publicado no jornal para que os ataques parassem. A partir desse ponto, é possível afirmar que não há mais liberdade de imprensa no México e, portanto, não há mais democracia. No Brasil, podemos caminhar muito rapidamente para isso. Se tivermos de pedir licença ao PT para poder dizer o que nós pensamos ou denunciar os erros do governo, a democracia estará morta.

Qual será o papel do presidente Lula no jogo político nos próximos quatro anos? Caso sua candidata vença, ele tentará tutelá-la, certamente. Mas, em qualquer situação, Lula terá quatro anos para fazer propaganda de si mesmo. E contará com a cobertura da imprensa para ecoar suas declarações. A imprensa é suicida nesse sentido. Dará voz a quem quer controlá-la. Com isso, ele passará os próximos quatro anos preparando a sua volta ao poder. E monitorando alterações estruturais no estado brasileiro que lhe permitam um novo governo sem tantas amarras, como as que a imprensa livre, a seu ver, impõe. Terá as mãos livres para preparar seu retorno em um governo ainda mais autoritário.

Desabando novamente

novembro 7, 2009 7 comentários

desabafo

Iniciei este blog com um desabafo, expressando meu desencantamento político, mais especificamente sobre crise do Senado, agravada com as infelizes declarações do Presidente Lula diferenciando os cidadãos de primeira classe (no caso Sarney e, por extensão, ele próprio) e o resto (nós, o povão, os “zés ninguéns”).

Quatro meses depois, tudo continua como antes. Sarney continua exibindo seu bigodão e cara de paisagem na presidência do Senado; o Agaciel, depois de alguns meses de férias, já está de volta ao “trabalho”; os poucos atos secretos anulados voltaram a valer; a “reestruturação” capenga do Senado encomendada à FGV não deu em nada; a Comissão de “Ética” chapa-branca repleta de suplentes absolveu todo mundo e apenas o jornal Estado de São Paulo foi punido com a censura.

Mais uma vez, Lula, o ilusionista, o mestre da política, elevado por Chaves à categoria de divindade, deu nó em pingo d’água e deixou a já raquítica oposição a ver navios. Assim como no escândalo do Mensalão, que o presidente enterrou com o factóide do pagamento antecipado da dívida do FMI (que na verdade foi uma troca de títulos da dívida externa, com juros de 4%, por títulos da dívida interna, com juros entre 8% e 12%!), agora o “expert” em abafar crises, com know-how testado e aprovado, conseguiu mais uma vez colocar uma cortina de fumaça sobre tudo com a sua carta na manga guardada a sete chaves para a campanha eleitoral: o famoso Pré-sal.

Seu discurso “histórico”, na véspera do 7 de setembro, sob o manto do nacionalismo oportunista, trouxe de brinde mais um factóide: o suposto “pagamento da dívida externa”, que até hoje não foi contestado por ninguém de expressão nacional, nem pela imprensa, nem pela oposição.

E por falar em oposição, cadê a oposição? Lula faz tudo ao contrário do que alardeava quando oposição e o máximo que se ouve é um ou outro pronunciamento, geralmente do DEM, pois a maioria dos tucanos foge de Lula como o diabo foge da cruz. E por que todo este medo? Será que faltam argumentos?

Certamente não, pois tudo no Governo Lula está superestimado, supervalorizado pelo contexto histórico favorável e pela manipulação de dados e, infelizmente, a oposição não tem competência para mostrar isso ao público. Vejam o exemplo da dívida, o Governo FHC teve motivos concretos para aumentar a dívida interna, pois herdou grandes “esqueletos” do passado que vieram à tona com a queda da inflação. Lula não teve motivos para se endividar. Aliás, era para baixar a dívida pela metade com o superávit primário que ficou definido em lei e, no entanto, só a fez aumentar e camuflá-la com o excesso de dólares no mercado. A população não sabe disso. E por que não sabe? Por que a oposição não esclarece. É difícil falar de economia para a população? Então por que não fazer uma cartilha para leigos?

O mínimo que se poderia esperar da oposição era que ironizasse as ações do Governo sempre defendidas pelo PSDB e combatidas pelo PT oposição. Agora tudo se inverteu e a oposição se cala. A internet está repleta de vídeos mostrando as contradições do Lula de antes e de hoje. Em um deles, o presidente chega a chamar de imbecis aqueles que criticam o Bolsa Família (http://www.youtube.com/watch?v=83WUqpvddq8). Logo após aparece o então candidato Lula criticando os mesmos programas do PSDB que ele unificou e mudou de nome, já que seu Fome Zero não saiu do zero. Mas quantas pessoas vêem isso? Cadê a oposição para mostrar isso ao povo?

Até entendo que o PSDB não queira repetir a oposição irresponsável do PT, mas daí baixar a cabeça a tudo que Lula diz e faz é demais. Trata-se de uma questão ética. Se o presidente mudou de opinião sobre várias questões que antes criticava, deve, no mínimo, reconhecer publicamente que estava errado. Enquanto não reconhecer, a oposição tem que martelar a questão.

Lula, ao contrário, não só se apoderou de todos os méritos dos governos anteriores, como ainda tem a cara-de-pau de semear o ódio contra os seus opositores, principalmente nos comícios que já se tornaram rotina, sob a complacência da justiça eleitoral.

Sua tática é clara: quando faltam argumentos, desqualifica-se o adversário. Agora mesmo temos um exemplo disso nas críticas que FHC fez a Lula. A resposta dos governistas, como sempre, foi atribuir tais críticas à inveja do sociólogo ao ex-torneiro mecânico. Pronto. Está resolvida a questão. O mérito das críticas passou para o décimo plano. A questão ficou exatamente como Lula quer, na superficialidade. Na briga do “eles contra nós” Lula triunfa absoluto, pois aposta na ignorância da maioria da população que, além da memória curta, não sabe diferenciar o que é mérito do governante e o que é fruto de um contexto histórico.

A minoria da população que sabe fazer esta diferenciação está isolada na Internet, sendo agora combatida pelo exército de fanáticos recrutado pelo garoto propagandas do PT, Paulo Henrique Amorim, o qual censura os comentários que podem provocar “dúvidas” nos seus comandados. Incrível como tais “jornalistas” abandonaram completamente a compostura jornalística entregando-se de forma tão descarada a uma campanha política ininterrupta. Tudo agora gira em torno das eleições. Em tudo tem conspiração, tudo agora é culpa do “PIG”. Não basta a máquina governamental, que torra bilhões em publicidade e alicia MST, sindicatos e até o “movimento” estudantil, o Governo quer mais. Quer a unanimidade, quer todos os meios de comunicação aos seus pés, dóceis, vangloriando o “grande timoneiro”. Se criticar, é logo tachado de “PIG”, direitista, tucanalha, etc.

Nesta guerra, os assuntos realmente relevantes são ofuscados por questiúnculas. As contas do governo, que deveriam ser acompanhadas de perto por toda sociedade, ficam desfocadas pelas intrigas políticas, pelos cada vez mais comuns casos de corrupção, fatos isolados que logo são esquecidos com o aparecimento dos novos casos.

Enfim, passaram-se quatro meses onde mais uma vez prevaleceu o toma-lá-dá-cá, os conchavos, as bravatas e caras-de-pau. Durante este tempo dediquei uma parte de um tempo do qual não disponho para tentar chamar a reflexão pelo menos uma ínfima parte da população hipnotizada do Brasil.

Muita pretensão minha, sim, pois achei que poderia convencer algumas pessoas a não cometerem os mesmos erros que cometi no passado quando me envolvi cegamente, principalmente nas campanhas presidenciais do PT. Sempre fui idealista e em nome das idéias e das pessoas em quem acreditava já discuti acirradamente com muita gente, desde a adolescência quando acreditava no comunismo, passando pela faculdade, quando tive que atrasar meu curso por me envolver demais com política estudantil, até mais recentemente nas eleições de 2002, quando cheguei a brigar feio com familiares, esposa, cunhada e até com a sogra defendendo então candidato Lula.

Hoje vocês devem imaginar o meu desconforto ao tocar neste assunto com estas pessoas. Pior, algumas dessas pessoas que antes detestavam Lula agora o idolatram, sendo que uma delas já chegou até a se desculpar comigo pelas brigas do passado, admitindo que estava errado sobre o agora “melhor presidente do Brasil”!

Mais desconfortável ainda me sinto quando vejo a indiferença dos jovens de hoje em relação à política (tenho dois adolescentes em casa), principalmente num momento crucial como o que estamos vivendo, quando temos um presidente populista que não mede esforços em acirrar os ânimos da sociedade contra seus poucos opositores, escondendo-se por trás do manto sagrado do nacionalismo e reeditando o velho bordão da ditadura militar que tentava enquadrar os opositores do regime com o famoso “ame-o ou deixe-o”. Vejam que ironia: agora sou tachado de “anti-nacionalista”, partidário do “quanto pior melhor” e até “urubólogo”, justamente pelos petistas mais radicais, aqueles que viviam torcendo para o Brasil quebrar na era FHC para então chegar ao poder.

Tão grave quanto à indiferença é o fanatismo “neo-esquerdista” que agora se apodera dos poucos jovens que se julgam “politizados”. Achando-se os “donos da verdade”, repetem como papagaios todo o “bê-á-bá” do “nunca na história deste país”, sempre endeusando o ídolo Lula e satanizando FHC (e por extensão o Serra). Por aqui, por exemplo, já chegaram vários, sempre com o discursos prontinhos, a maioria tão frágeis que não resistem mais de duas ou três réplicas (podem conferir nos comentários postados em cada um dos posts e verão do que estou falando).

Enfim, vou ficando por aqui neste muro de lamentações. Vou dar uma parada nos posts por três meses para me dedicar a um projeto pessoal. Durante este tempo vou continuar respondendo os comentários e publicando alguma coisa no Twitter. Se meu projeto der realmente certo, volto a me dedicar a este hobby que é repassar um pouco da minha experiência, principalmente aos mais jovens. Caso contrário, deixo aqui a minha pequena contribuição a quem interessar.

Agradeço a todos os amigos que ajudaram a divulgar nosso blog, em especial aos tuiteiros @veluca, @tom_ssa, @carlabeatriz, @drmarcosobreira, @carolzanette, @ alvarodias_ , @SandraMBS, @MarcosPontes, @sukarno_cruz, @ruminamentos, @inconfidente , @sandrasimi @BeteFOMattos e tantos outros amigos que fiz aqui.

Abraço e até logo.

Lula e a dívida pública (PARTE 7)

outubro 10, 2009 39 comentários

Divergências sobre a Dívida Interna

charge_lula_dividas

Pretendia neste post me aprofundar um pouco mais nas contradições dos números oficiais sobre a dívida externa. No entanto, tive que mudar novamente a programação, pois encontrei no site do Banco Central uma afirmação que reforça uma suspeita que coloquei em discussão no quinto post desta série.

Na ocasião, questionei o fato do relatório oficial do Tesouro Nacional não contabilizar nos três últimos anos no total da dívida interna os títulos em poder do Banco Central (uma bagatela de R$ 494 bilhões em dezembro de 2008!). Com um valor tão expressivo, relutei em acreditar que o Governo teria tido a cara-de-pau de ocultá-lo. Mas aí lembrei da cara-de-pau do Presidente Lula mentindo descaradamente sobre o suposto “pagamento da dívida externa” e então me senti encorajado a pelo menos colocar a questão em discussão, solicitando a ajuda de algum internauta economista que nos ajudasse a esclarecer a dúvida a aparente manobra contábil.

Mas eis que ao buscar dados sobre a dívida externa no site do Banco Central, me deparei com a seguinte afirmação perdida em meio a dezenas de páginas de um relatório (mais precisamente na página 78, pode conferir aqui), onde o BC afirma:

“Os títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional totalizaram R$1.759,1 bilhões em dezembro de 2008, dos quais R$494,3 bilhões em poder do Banco Central.”

Apesar de não ser economista, concluo, portanto, que os títulos em poder do BC também fazem parte do Tesouro. Neste caso, deveriam ser contabilizados no total da dívida interna no relatório divulgado pelo Tesouro à imprensa.

Quem quiser conferir diretamente o relatório do Tesouro, acesse a planilha de dezembro de 2008 , clique na aba “2.1”. Por ser muito grande a planilha, recortei apenas os dados referentes ao mês referência (dezembro), conforme pode ser observado na figura abaixo:

relatorio

Observe que a soma entre os R$ 494,31 bilhões em títulos “em poder do BC” não computados no total e o valor da dívida interna do topo de página, no valor de R$ 1.264,82 bilhões, dá precisamente R$ 1759,13 bilhões , o mesmo valor citado no relatório do Banco Central e que confirma a nossa suspeita.

Agora compare o recorte do “novo formato de relatório” acima com o formato antigo que vigorou até 2006. Os dados abaixo são do final do Governo FHC.
dividaInterna_dez2001

Perceba que não só o total da dívida interna está no final da página (como deve ser qualquer relatório decente) como o total dos títulos em poder do Banco Central devidamente contabilizados.

Mudou por que?

De acordo com reportagem publicada no G1 e no Valor Online, no início de 2007, o objetivo do Governo com a mudança do relatório era “aumentar a transparência sobre a gestão do endividamento público”.

Além de mudar o formato, o relatório mudou também a metodologia, pois passou a computar também uma parcela da dívida externa que o Governo diz que quitou mas que continua lá (sobre isto nos aprofundaremos em um post específico). Porém, em nenhum momento a reportagem cita a ausência dos títulos em poder do Banco Central no total da dívida interna. E olha que não era nenhuma quantia irrisória não. Já em 2007, este valor já totalizava R$ 297 bilhões!

Qualquer que seja a explicação do Governo, o que se poderia esperar da imprensa era pelo menos um parágrafo sobre esta quantia tão expressiva que aparece no relatório sem ser contabilizada no total. Se não é para contabilizar, então esta quantia deveria aparecer em outro lugar, mas não na totalização final da dívida, como é atualmente. Portanto, se o objetivo do Governo com a mudança do relatório foi realmente “tornar mais transparente” o relatório, pode ter funcionado para os economistas. Para mim, pelo menos, ficou mais confusa.

Mais surpresas

No post anterior publiquei uma tabela com diferentes versões sobre a dívida interna de acordo com os relatórios do Tesouro Nacional, do IPEA e da Auditoria Cidadã da Dívida.  (Para conferir as fontes, clique nos links). Eis que encontrei mais duas versões! Pior: duas versões de uma mesma instituição, o Banco Central!  Pior: duas versões da dívida muito maiores que as apresentadas pelo Governo à imprensa!

Ou seja, agora temos cinco versões da dívida interna: quatro de órgãos do Governo e uma de uma ONG, conforme pode ser visualizado no gráfico abaixo:

divida_interna_agosto_2009

Os links das fontes estão disponíveis no final do artigo.

Se a diferença de R$ 161 bilhões no ano de 2007 entre as versões do IPEA e do Tesouro (citada no post anterior) já era de pasmar, agora temos uma diferença de R$ 500 bilhões entre uma das duas versões da dívida segundo o BC e a versão oficial do Tesouro divulgada para a imprensa. (Para ver os relatórios do BC, clique aqui)

Observe no gráfico que a série histórica do IPEA (verde) dá um grande salto a partir de 2007, justamente o ano em que a versão do “novo relatório” do Tesouro exclui do total da dívida os títulos em poder do BC. Como a série histórica do IPEA não mostra a discriminação dos itens da dívida, não dá para afirmar com certeza de que tal salto seria decorrente dos títulos em poder do BC (até porque o salto é menor do que os altos valores dos títulos supostamente ignorados). Mas, como os dados já divergem nos meses anteriores, então a dúvida fica reforçada.

Outra coisa que chama a atenção é segunda versão da dívida do BC (gráfico roxo). Segundo ela, a dívida deixada por FHC seria de R$ 848 bilhões (e obviamente a dívida atual do no Governo Lula já teria ultrapassado a casa dos R$ 1,9 trilhão). De fato, lembro bem desse número, pois acompanhava a economia nesta época e serviu para sepultar a minha credibilidade no PSDB e depositar minhas esperanças no PT. No entanto, já faz algum tempo que não encontrava dados com este número na web. As diferentes versões da dívida que encontro aparecem sempre oscilando entre R$ 623 bilhões e R$ 650 bilhões. Então pensei: devo ter me enganado ou talvez confundido a totalização da dívida interna com a dívida bruta, que inclui a dívida externa.

Mas não estava enganado. Finalmente encontrei o relatório que traz este número no BC. Daí também surge o percentual mágico de 74% de endividamento do Brasil no final do Governo FHC que alguns petistas hoje sempre citam para justificar o suposto endividamento atual de 44%, tomado como base na menor versão da dívida, obviamente.

Mais uma “mudança metodológica”

Nas duas planilhas do BC que apresentam as duas versões da dívida pública não existe nenhuma explicação sobre o porquê da existência das duas tabelas (ou das duas metodologias). No entanto, os títulos das tabelas nos ajudam a entender mais esta variação da contabilidade do Governo atual. Na versão 1, o título da tabela é “Dívida líquida e bruta do governo geral1/ (R$ milhões) – Metodologia utilizada até 2007”.

O número 1 que aparece ao lado da palavra “geral” nos remete a seguinte legenda em letras microscópicas no final da tabela:

‘1/ Inclui as dívidas do Governo Federal e dos governos estaduais e municipais com os demais agentes econômicos, inclusive com o Bacen.

A mesma legenda na tabela com a nova metodologia adotada a partir de 2008 diz o seguinte:

1/ O Governo Geral abrange Governo Federal, governos estaduais e governos municipais. Exclui Banco Central e empresas estatais.

Ou seja, na nova metodologia adotada pelo BC, a partir de 2008, estão excluídos os títulos em poder do Banco Central (os mesmos títulos excluídos do relatório do Tesouro a partir de 2007) e as dívidas das empresas estatais.

Portanto, a pergunta que não quer calar é: por que os títulos em poder do BC foram retirados do cálculo da dívida?

Pesquisando sobre o assunto, encontrei entre os milhões de pdfs do site do BC a seguinte afirmação na página 15 do Manual de Estatísticas Fiscais (veja aqui):

Dívida mobiliária do Banco Central – Dívida pública interna do Banco Central do Brasil constituída pelos títulos públicos de sua emissão registrados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), colocados e resgatados em moeda nacional. Em 2006, foram resgatados os últimos títulos de emissão do Banco Central, tendo deixado de existir, desde então, dívida mobiliária emitida pela Autoridade Monetária.”

De fato, os títulos do BC chegaram a ser zerados em 2006, conforme pode ser verificado nos relatórios disponíveis no site do Tesouro. Mas como alegria de pobre dura pouco, já no ano seguinte, no novo formato e metodologia do relatório, um novo montante em poder do BC volta a aparecer no relatório, apesar de não ser computado no total da dívida oficial divulgada pelo Tesouro.

Note que nas duas mudanças metodológicas da contabilidade da dívida pública promovidas no Governo Lula no curto espaço de um ano, as novas versões apresentam valores finais bastante inferiores e que a versão apresentada para imprensa é justamente a menor das cinco versões.

Caso não tivesse sido mudada a metodologia do BC em 2008, a dívida bruta do governo em agosto de 2009 já ultrapassaria a casa dos R$ 2 trilhões (mais precisamente R$ 2,022 trilhão), conforme pode ser constado aqui.

Enfim, se o objetivo do Governo com as mudanças nos relatórios era realmente torná-los mais “transparentes”, certamente o objetivo não foi alcançado (pelo menos para  o cidadão comum).

Fontes:

  • IPEA – O site não permite links secundários (sabe lá por que). Para acessar então a planilha da série histórica da dívida externa, clique na aba “Macroeconomico”, em seguida em “Índices Analíticos” e finalmente em “Dívida líquida do setor público”.
  • Tesouro Nacional
  • Banco Central
  • Auditoria Cidadã da Dívida

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Para ver o primeiro artigo desta série, clique aqui.

Para ver o segundo artigo desta série, clique aqui.

Para ver o terceiro artigo desta série, clique aqui.

Para ver o quarto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o quinto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o sexto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o oitavo artigo desta série, clique aqui.

Para ver o nono artigo desta série, clique aqui.

Para ver o décimo artigo desta série, clique aqui.

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Lula e a “Mídia Golpista” (PARTE 3)

imprensa

Terminamos o segundo post desta série com uma pergunta: a quem interessa uma imprensa desmoralizada? A resposta é óbvia: a todos os corruptos do país, especialmente os corruptos políticos.

Neste contexto, o atual Governo presta um grande desserviço a nossa democracia, pois, ao usar sua popularidade para colocar a sociedade contra a imprensa, Lula coloca a faca e o queijo nas mãos dos congressistas para que estes elaborem uma nova lei de imprensa, de acordo com seus interesses.

Um mau prenúncio

O projeto de lei do Dep. Paulo Maluf que limita os poderes do Ministério Público na investigação de políticos é uma mostra do que pode vir a ocorrer num futuro com uma nova lei de imprensa criada por um Congresso em conflito com a mídia. Este mesmo projeto (já aprovado na Câmara e atualmente em tramitação no Senado) foi usado pelo próprio presidente Lula para “alertar” o Ministério Público com uma possível “castração de poderes”, caso o novo procurador geral da república não tivesse cuidado com as “biografias” dos investigados (no caso, Sarney). Para quem não sabe, o tal projeto proíbe a atuação do Ministério Público de investigar parlamentares quando “existirem motivações políticas” nas iniciativas dos procuradores. O problema é que os políticos usam a desculpa da “perseguição política” para se defenderem de quaisquer acusações. Logo, a atuação do Ministério Público, uma das poucas instituições de respeito do país, pode ficar de mãos atadas para investigar os políticos, caso tal projeto seja aprovado.

O verdadeiro golpe

Desde o fim da ditadura militar, parlamentares e jornalistas travam uma verdadeira batalha nos debates sobre para a criação de uma nova lei de imprensa. Em 1992, o Senado chegou até a votar uma lei que previa, entre outras coisas, a volta de um dos mais autoritários dispositivos da lei da instituída no período militar, que previa a prisão de jornalistas como punição para supostos delitos de imprensa. Para punir e principalmente inibir os meios de comunicação, os senadores ainda instituíram multas entre 10 e 20% do faturamento anual das empresas, valores que poderiam ser acrescidos em até 50% em caso de reincidência!!!

Felizmente o tal projeto de lei não foi sancionado e as discussões prosseguiram ao longo dos anos, chegando ao absurdo de termos hoje uma lei revogada e um projeto ainda em tramitação.  Ou seja, o Brasil é hoje o único país do mundo que não tem uma lei de imprensa.

Tal situação possibilita que Sarney, por exemplo, use dispositivos correlatos existentes nos códigos Civil e Penal (editados em plena ditadura Vargas) para censurar o jornal Estadão e veículos de comunicação do Maranhão e do Amapá.

Também usando os mesmos artifícios, a Igreja Universal do bispo Edir Macedo tem também minado os grandes jornais paulistas com milhares de processos em diversas comarcas espalhadas em todas as regiões do país. O “bispo”, aliás, tem engrossado o coro governista na guerra contra a “mídia golpista”, especialmente em relação à Rede Globo, hoje último obstáculo para a ascensão da sua Rede Record ao topo da audiência.

Em outra frente de combate a “mídia golpista”, os blogueiros a serviço do Lulismo (PHA e Azenha, por exemplo) aproveitam a ainda livre blogosfera para denegrir e promover o boicote dos seus “fiéis” leitores aos veículos de comunicação incluídos na lista negra do “PIG”, sigla de “Partido da Imprensa Golpista”, termo inventado pelo deputado petista Fernando Ferro e   popularizado por Paulo Henrique Amorim.

Se hoje existe uma grita geral nos três poderes contra a divulgação da imprensa de gravações e documentos obtidos de forma “ilegal”, no futuro certamente teremos na nova lei de imprensa proibindo tais reportagens classificadas por Lula como “denuncistas”.  Ou seja, será o fim das reportagens investigativas, pois os veículos de comunicação terão que ficar excessivamente cautelosos. E aí teremos uma autêntica “democracia autoritária”, bem nos moldes venezuelanos, onde veículos de comunicação de oposição ao governo são fechados e os jornalistas que continuam na ativa se sentem cada vez mais policiados ideologicamente.

Neste cenário cada dia mais radicalizado, pode sobrar para a Internet alguns “dispositivos legais” da lei de imprensa e eleitoral com o objetivo de proteger a “honra” das vossas excelências. Se isto ocorrer, espaços como este aqui certamente não terão a mesma liberdade para criticar os desmandos e abusos dos nossos ilustres representantes.

Quem perde com isso, claro, é a sociedade, pois a divulgação das falcatruas das nossas “excelências” é uma das poucas formas de punição que ainda funcionam neste país, já que bandido de colarinho branco não fica mais de um dia na cadeia (e nem sequer mais usa algemas por determinação do ilustre ministro do STF, Gilmar Mendes).

Blogs versus jornalões

Com a ascensão da Internet como meio de comunicação, existe uma tendência mundial de diminuição de importância dos grandes jornais, o que já se reflete nas reduções de tiragens e fechamento tais veículos. Nos EUA, por exemplo, todos os grandes jornais estão em crise. No Brasil, os principais jornais de alcance nacional (Folha, Estadão e O Globo) também têm reduzido suas tiragens.

No sentido inverso, os blogs políticos crescem a cada dia em importância. O blog de Noblat, por exemplo, em alguns momentos chega a ter mais audiência que os maiores portais do Brasil, entre os quais incluem-se as próprias versões on-line dos grandes jornais.

O problema desta nova realidade é que os blogs, além de terem um caráter mais opinativo, seus colunistas costumam exagerar na contundência de suas críticas, tanto ao governo quanto à oposição. Diferente de um grande jornal, por exemplo, onde as matérias são revisadas e analisadas pelos editores antes de serem publicadas, nos blogs as informações são disseminadas instantaneamente de forma direta ao público, na maioria das vezes sem o cuidado necessário na checagem das fontes.

O problema da distorção das informações nestes veículos é acentuado por dois fatores: o primeiro é a participação online dos leitores levando os pontos de vistas do colunista aos extremos (já que estes podem se apresentar com nomes e emails falsos e, portanto, se sentem no direito de falar qualquer coisa); o segundo é a censura de comentários contrários à opinião do colunista, o que provoca uma concentração de opiniões concordantes, levando aos leitores destes espaços a visões distorcidas da realidade e a um acirramento da guerra ideológica entre governistas e oposição (ver o exemplo do Paulo Henrique Amorim no primeiro artigo desta série).

Claro que em algum momento alguma coisa terá que ser feita para regulamentar a blogosfera. O problema é que qualquer iniciativa neste sentido será motivo de grande polêmica, principalmente em um ambiente de crise institucional com os três poderes em guerra com a imprensa. Coragem para enfrentar a opinião pública os congressistas já demonstraram ter no arquivamento das denúncias contra Sarney, principalmente quando contam com o apoio de um presidente com altos índices de aprovação.

Enfim, estamos caminhando para um terreno perigoso, caminho já trilhado pela Venezuela de Hugo Chaves. Nosso presidente da república, de forma consciente ou não, tem sido um dos principais vetores deste processo, ao colocar seus interesses pessoais acima dos interesses da Nação e ao tentar colocar a sociedade contra a imprensa, o principal instrumento de policiamento dos nossos políticos que dispomos hoje.

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