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Lula e a “Mídia Golpista” (PARTE 2)

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O processo de “desencantamento” da imprensa com o presidente Lula (descrito na primeira parte deste artigo), pressupõe que no início do governo a mídia ainda não tinha o caráter “golpista” a ela atribuído nos últimos meses. Para embasar esta afirmação, analisei as três primeiras pesquisas científicas que apareceram no Google sobre a cobertura dos principais jornais do país nas eleições de 2002, das quais posto aqui as principais conclusões.

Pesquisa 1 – Katia Saisi *

Citação 1:
“Verifica-se que os percentuais de citações que os jornais fizeram de cada candidato são bastante próximos e não houve diferença maior do que três pontos. No primeiro turno, o destaque é dado para Serra (31,48% na Folha e 31,44% no Estado), seguido por Lula (28,30% na Folha e 30,88% no Estado), Ciro (24,30% e 23,41), Garotinho (15,34% e 14,07%). (…) Já no segundo turno, Lula liderou praticamente com 60% das aparições nos dois jornais, ficando Serra com 40%.”

Citação 2:
“O eleitor escolheu entre os que se enquadravam ao esquema de mercado, sem se ter a chance de questionar as ofertas (…) Discutimos quem era o mais competente para administrar o país sem pôr em risco o sistema.”

Pesquisa 2 – Emerson Urizzi Cervi **

Citação 1:
“A cobertura da mídia impressa da campanha presidencial ficou próxima do formato de cobertura dos meios eletrônicos: fragmentada e pouco preocupada com temas substantivos”.

Citação 2:
“Os dados também permitem afirmar que Lula não pode ser considerado perseguido pela imprensa, posição que muitas vezes o próprio candidato e seu partido costumam defender. Lula recebeu o volume de cobertura proporcional à média da intenção de votos no período. O maior índice de aparições de Serra, por si só, não foi suficiente para reduzir a cobertura feita pela imprensa da candidatura de Lula. A diferença das valências negativas em relação às valências positivas do candidato do PT ficou próxima das observadas no caso de José Serra”.

Pesquisa 3 – Alessandra Aldé ***

Citação 1:
“O Estado de São Paulo foi o jornal mais parcial analisado. Na verdade, a condição declarada de apoiar o candidato do governo tornaria, no entender dos editores do próprio diário, a cobertura mais transparente para o leitor”.

Citação 2:
“Na Folha, destacam-se os altos índices de neutralidade (…)  É interessante notar, também, a linha editorial, em que as matérias que têm valência são quase sempre negativas, e para todos os candidatos, ressaltando a vocação crítica que a Folha sempre buscou”.

Citação 3:
“O Globo teve uma cobertura menos regular, vinculada aos fatos de cada quinzena, e portanto, favorecendo ora um, ora outro. Surpreende, por parte de um tradicional bastião governista em processos eleitorais, a benevolência adotada no trato de Lula. O interesse jornalístico e a campanha correta do candidato deram origem a uma cobertura francamente favorável, que reproduziu o favoritismo do candidato petista.”

Citação 4:
“As organizações Globo (…) também tiveram como característica marcante a iniciativa de capitalizar o assunto eleitoral, explorando o potencial interesse pelo tema eleitoral. Os principais candidatos também comparecem a suas primeiras entrevistas exclusivas no Jornal Nacional (…). Assim, o pico de cobertura positiva para todos os candidatos (…) explica-se graças à promoção, pela Rede Globo, de uma série de entrevistas com todos os candidatos”

Conclusões sobre as conclusões das pesquisas

De um modo geral os resultados das pesquisas são complementares. No primeiro turno, a imprensa deu um leve destaque a mais a José Serra, quadro que se inverteu no segundo turno, quando as pesquisas já apontavam uma tendência de vitória para Lula. Ou seja, da mesma forma que os candidatos se moldam aos anseios dos eleitores e do sistema, também é verdade que os meios de comunicação “pendem” para os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas.

Ou seja, ao contrário do que o bloco governista fala hoje sobre a imprensa, o fato é que, quando assumiu, em 2003, Lula gozava de total apoio da sociedade e da imprensa, a qual se desmanchava em elogios pelo enorme feito do ex-metalúrgico que se tornou presidente, orgulho da democracia brasileira no exterior.

A perda do apoio da imprensa (como demonstrado no post anterior) é um processo que vem ocorrendo no dia-a-dia da cobertura jornalística. Ao contrário das massas que se encantam com os discursos inflamados do presidente, os jornalistas percebem em tais falas cada manobra política, sempre com o objetivo de se promover e, ao contrário, diminuir os adversários. Da mesma forma que o presidente discursa para as massas falando mal do senado, por exemplo, ele é capaz de, no mesmo dia, discursar para os senadores os enaltecendo.

Um caso que ilustra bem a decepção dos jornalistas com o presidente é o caso do editor da Carta Capital, revista que é quase uma porta voz do PT. O ítalo-brasileiro Mino Carta, decepcionado com o governo, abandonou seu blog e a redação da revista desde fevereiro de 2009. Em seu último post, no seu blog, o jornalista descreve sua decepção progressiva com os rumos do país que escolheu para viver, bem como com o governo petista que acreditou ser a esperança para o Brasil. (Para ver o post, clique aqui)

Guerra declarada

Uma prática condenável comum entre os advogados quando tentam defender um réu culpado é desqualificar o acusador. E assim fez o governo. Ao desqualificar a imprensa atribuindo-lhe um caráter golpista de direita, o governo repete a retórica de Hugo Chaves, criando um clima de acirramento cada vez maior na sociedade brasileira, incentivando a luta de classes e promovendo o ódio em relação à imprensa.

E aí chegamos ao festival de irracionalidades dos últimos meses. Os blogs a favor e contra o governo contribuem ainda mais com tal processo, pois concentram leitores de opiniões semelhantes. Na quase ausência de argumentos contrários, tais leitores sentem-se cada vez mais convictos de suas posições e dispostos ao enfrentamento.

A tática de contra-informação do governo se reflete tanto na “tropa de choque” do Congresso, quanto nas mídias “alternativas” e jornais populares. Neste contexto, a recém lançada coluna “O presidente responde” tem uma importância fundamental na divulgação da opinião do governo nos jornais regionais de todo o país em contraposição aos jornalões Folha e Estadão.

Nesta guerra, alguns fatos isolados costumam chamar mais atenção do que deveriam (e vice-versa). No meio jornalístico, o temor de ver o Brasil trilhar nos rumos da Venezuela encontram eco na opinião favorável do presidente em impor um controle externo na imprensa, no desejo de controle da Internet, nas censuras via liminar que começam a ocorrer no episódio Sarney, além do boicote à grande imprensa promovido pelos blogueiros governistas.

A questão que fica é: a quem interessa uma imprensa desmoralizada? A resposta é óbvia: a todos os corruptos do país, especialmente os corruptos políticos.

Para ver a primeira parte deste artigo, clique aqui.

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Autores das pesquisas citadas:

* Katia Saisi é  jornalista formada pela PUC/SP, pós-graduada em Comunicação e Marketing, professora da Universidade Anhembi Morumb e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP. Link da pesquisa: http://www.pluricom.com.br/forum/o-discurso-jornalistico-sobre-a-campanha

** Emerson Urizzi Cervi, Jornalista, Doutorando em Ciência Política e pesquisador do Laboratório Doxa de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública. Link da pesquisa: Fonte: http://bocc.ubi.pt/pag/cervi-emerson-imprensa-eleicoes-2002.html#foot21

*** Alessandra Aldé, pesquisadora da UFRJ, graduada em Comunicação Social pela PUC-RJ, mestrado e doutorado em Ciência Política no IUPERJ e professora adjunta da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Link da pesquisa: Fonte: http://doxa.iuperj.br/artigos/Presidenciais2002jornais1.doc