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Os desafios do pós-Lula (candidatos)

outubro 24, 2010 14 comentários

Dilma x Serra
Para quem leu os dois primeiros posts desta série, deve perceber que a maioria dos tópicos abordados (principalmente os macroeconômicos) nem sequer foram citados pelos dois principais candidatos. O primeiro motivo é óbvio: falar de macroeconomia para a grande massa é algo complicado. O segundo, e mais importante, é que as eleições foram transformadas pelo presidente Lula num plebiscito entre a continuidade ou não dos projetos do atual governo. Resultado: tanto Dilma como Serra ficaram reféns do otimismo para o futuro cantado em verso e prosa pelo marketing oficial. E aí então assistimos a este espetáculo lamentável de troca de acusações, desqualificações e deboche, enquanto que os reais problemas do país estão sendo relegados.

Infelizmente o objetivo inicial desta série, que seria confrontar os programas de governo dos dois candidatos sobre cada um dos temas citados nos dois posts anteriores desta série, não será possível. Isto porque os “programas” de governo dos dois candidatos parecem mais duas listas de promessas genéricas. Trocando em miúdos, tanto no guia eleitoral, quanto nos programas improvisados de ambos os candidatos as retóricas tem muito mais convergências do que divergências. Tudo parece mais fácil e melhor do que realmente é.

Portanto, se o confronto não é possível nas propostas, então vamos focar nas divergências mais visíveis entre os dois candidatos.

Caso não tenha lido os primeiros posts desta série, clique nos links abaixo:
Primeira parte
Segunda parte

Gastos públicos

Esta era para ser a principal diferença entre os dois candidatos. Antes da campanha oficial começar, havia um consenso entre os economistas de que o Governo Lula gasta mais do que devia e que um eventual governo Serra poria um freio na gastança. No entanto, em um momento de desespero na campanha, Serra prometeu mais do que deveria, colocando em dúvida este viés positivo dos tucanos.

Como se não bastasse a promessa de aumento do salário mínimo para R$ 600,00, o candidato foi além, prometendo 13º do Bolsa Família e aumento de 10% aos aposentados. Não que seja impossível, mas certamente um eventual governo Serra teria que cortar muitos outros gastos para poder honrar tais promessas.

Por outro lado, a candidata Dilma continua prometendo continuar a gastança insustentável do Governo Lula. Basta uma olhada rápida nos números do badalado PAC para ver o quanto de ilusão há nisso tudo. Caso seja eleita, a candidata não só terá que concluir metade das obras do PAC 1, lançado há três anos, como ainda terá que tocar simultaneamente o PAC 2, que prevê um orçamento três vezes superior ao primeiro. Ou seja, terá que fazer 350% a mais do que Lula.

Uma pena que o debate político tenha se transformado em um leilão de promessas, pois é no controle do gasto público que está a chave para a resolução da maioria dos problemas macroeconômicos citados no primeiro post desta série. É com a redução dos gastos que o governo reduz a dívida pública que, por sua vez, ajuda a reduzir a taxa de juros que, por sua vez, diminui os gastos com juros e serviços da dívida que, por sua vez, cria um círculo virtuoso com reflexo em todos os demais indicadores econômicos.

Privatização

O principal “diferenciador” entre os candidatos nesta campanha tem sido um assunto que já deveria ter sido sepultado. Embora a candidata Dilma tente, a todo momento, enfatizar a imagem de privatista de Serra, especulando sobre uma suposta intenção de privatizar a Petrobrás e o Pré-sal, na prática, nem o PT acredita nisso.

Apesar de nos palanques continuar com o discurso fácil de atribuir ao PSDB o rótulo de surripiador do patrimônio público, nos bastidores o PT não só reconhece que as privatizações foram corretas, como ainda promove novas, inclusive repetindo um dos mais lamentáveis erros do PSDB que, no meu ver, é a privatização de estradas. Para ver a real opinião do PT sobre a tão criticada privatização da Vale, cito como exemplo, o relatório do partido sobre a tentativa de reestatizar a empresa, que felizmente não ocorreu. Clique aqui e veja o relatório do PT sobre o assunto e perceba a diferença do discurso do marketing de campanha e da realidade dos bastidores.

Além do mais, a maiorias das privatizações que deveriam ter sido efetuadas já o foram, de forma que a privatização da Infraero e outras concessões menores ao setor privado deverá ocorrer no próximo ano qualquer que seja o candidato eleito. Aliás, a Infraero só não foi privatizada no Governo Lula para não enfraquecer o discurso do PT nestas eleições.

Quanto ao Pré-sal, acho muito pouco provável que Serra venha a alterar o modelo de partilha, a não ser que este se revele um completo desastre. Privatizar a Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica e Correios são mais algumas das muitas balelas desta campanha. Uma prova disso é que, mesmo precisando desesperadamente de dinheiro, os tucanos investiram R$ 60 bilhões no Banco do Brasil, Caixa e BNDES, com o objetivo de fortalecê-los. Se a intenção fosse realmente privatizar, dificilmente teriam feito tal esforço.

A reforma da Previdência

O déficit crescente da previdência é uma bomba relógio que deverá ser desativada muito brevemente. Aliás, já deveria ter sido desativada, pois o Governo Lula teve todas as condições para isso: popularidade e maioria no Congresso. Não o fez porque pretendia transformar as eleições de 2010 em um plebiscito entre a “continuidade” ou não do seu governo e mexer neste tema certamente iria reduzir sua popularidade.

Portanto, ambos os candidatos estão cientes desta responsabilidade e já sinalizaram na direção do aumento da idade mínima para aposentadoria. O problema é que este é o tipo de reforma que só é possível aprovar no início dos governos, quando estes ainda estão em “lua de mel” com os eleitores. A Dilma certamente teria melhores condições por ter mais apoio no Congresso. No entanto, é certo que ela enfrentaria oposição até mesmo dentro do PT. Serra teria que negociar um pouco mais, mas certamente conseguiria facilmente atrair o PMDB e teria total apoio da sua coligação.

Mas existe uma outra diferença importante entre os candidatos que têm grandes reflexos na Previdência a longo prazo. O Estado maior que defende o PT implica num maior número de funcionários públicos. O problema é que quanto maior o número de funcionários públicos, maior o déficit da previdência. Hoje, por exemplo, os 10% dos aposentados do setor público representam mais da metade do déficit da previdência. Isto acontece por dois motivos: 1) Os aposentados do setor público têm aposentadorias bem maiores que a média geral da população; 2) A contribuição previdenciária do setor público é de apenas 11%, enquanto que do setor privado a contribuição ultrapassa os 30% (o funcionário contribui com 11% e as empresas com 20%).

Na melhor das hipóteses (que o próximo governo consiga aprovar a reforma da Previdência), os resultados só serão sentidos nos cofres públicos na próxima década. Até lá teremos que conviver com os gigantescos déficits crescentes ano após ano.

Reforma Tributária

Aqui há uma das maiores diferenças entre os dois candidatos. Se a candidata Dilma seguir o que prega seu padrinho Lula, o Brasil continuará ostentando uma das maiores cargas tributárias do mundo, pois ele já defendeu publicamente a taxa atual de 38%, um pouco inferior a dos países escandinavos, os recordistas neste quesito.

A diferença é que os cidadãos escandinavos pagam uma carga tributária de 40%, mas contam com serviços públicos de qualidade, inclusive educação e saúde. No Brasil, pagamos uma carga alta carga tributária, porém temos que pagar por fora educação, saúde e até segurança, em alguns casos. Ou seja, se levarmos em consideração que 38% do que pagamos é imposto e que comprometemos boa parte da nossa renda com educação e saúde privada, concluímos então que estamos disparados no topo da lista dos maiores pagadores de impostos do mundo.

O curioso é que neste assunto há uma total inversão de posições entre governo e oposição. Durante o governo FHC, quando a carga tributária foi aumentada de 29,46% do PIB para 35,61%, o PT pregava a redução. No governo, o PT elevou a carga tributária para 38% do PIB e agora é o PSDB que prega a redução.

O PSDB tem a desculpa de que aumentou a carga tributária em decorrência do aumento da dívida interna e do ambiente desfavorável para os emergentes na era FHC. Já Lula justifica a alta carga tributária pela forte demande de gastos sociais.

O fato é que, entre os economistas, há um consenso de que este é um dos principais gargalos para o nosso crescimento sustentável, principalmente agora que o cambio valorizado reduz ainda mais nossa competitividade.

Neste quesito, portanto, Serra tem se destacado, pois propõe não uma reforma ampla que altere bruscamente o regime tributário (o que poderia ter sérias conseqüências a curto prazo), e sim uma seqüência de ajustes que apontem para uma redução gradativa da carga tributária.

A taxa Selic

Aqui também há uma inversão de posições. O PT da oposição que sempre criticou as altas taxas de juros, os lucros exorbitantes dos banqueiros e a independência do Banco Central, consolidada na era FHC, agora defende tudo isso. Serra, no entanto, surpreendeu o mercado recentemente defendendo uma ação mais efetiva do governo na redução da taxa Selic, o que significa, na prática, uma intromissão na independência do BC.

De fato nossas taxas de juros ainda são as mais altas do mundo, mas certamente não podem ser baixadas por decreto. Elas são mais conseqüência do que causa. Logo, sua redução deve ser precedida pela redução dos gastos públicos e da dívida pública. Neste caso, Serra leva vantagem, pois já fez algumas declarações neste sentido.

O governo Lula teve oito anos para resolver esta perversa equação da Selic, uma anomalia da nossa economia que faz disparar nossa dívida pública, valoriza o Real e reduz nossa competitividade. A candidata Dilma, se continuar o modelo de Lula, vai continuar também com um alto endividamento, o que, por sua vez, impede a queda da Selic.

Reforma Trabalhista

Esta é um tabu para o PT. É quase sinônimo de perda de direitos trabalhistas. Certamente não será alterada num eventual governo Dilma. Embora o PSDB de FHC tenha tentando flexibilizar as leis trabalhistas, Serra não tem falado muito neste tema, embora tenha tocado num ponto crucial: a redução da tributação na renda, um dos principais objetivos da Reforma Trabalhista. Seria uma importante contribuição a nossa economia e aos cidadãos.

CONCLUSÃO

Embora os países emergentes como o Brasil tenham saído fortalecidos da crise de 2008, o fato é que os ventos da economia mundial hoje são uma incógnita. A guerra cambial que já está nos afetando poderá nos levar a uma grave crise nos próximos anos, justamente no momento em que as pressões por gasto público serão ainda maiores com a realização da copa e das olimpíadas. Qualquer que seja o vencedor das próximas eleições, portanto, terá um desafio ainda maior que seu antecessor.

No caso da Dilma, a continuidade dos programas lançados no final do governo Lula continuarão pressionando os gastos do governo para cima. A grande aposta para manter este modelo insustentável são os ganhos extras do Pré-sal. Se der tudo certo, o país ganha um pouco mais de fôlego. Caso contrário, teremos que passar por uma grave crise para perceber a irresponsabilidade do Governo Lula ao protelar a solução de muitos dos problemas que serão herdados pelo próximo governo, tudo em por causa das eleições.

No caso de Serra, a responsabilidade seria ainda maior, pois além dos desafios citados nesta série, teria também o grande desafio de atender às expectativas da população que concedeu uma alta aprovação ao seu antecessor.

Claro que a eleição de um tucano não é nenhuma garantia de que as reformas macroeconômicas pendentes sejam implementadas, até porque o PSDB de hoje perdeu alguns dos seus principais quadros e ultimamente andou se rendendo ao populismo lulista de governar para a torcida.

No entanto, temos que considerar que Lula teve oito anos de bons ventos para alterar significativamente este quadro, mas não o fez. Só para lembrar, das seis grandes reformas prometidas no discurso de posse ainda do primeiro mandato, não implementou nenhuma, nem mesmo a tão badalada reforma agrária, bandeira histórica do PT. O mínimo que se esperava deste governo, em uma época de tão bons ventos, seria que este reduzisse a dívida significativamente, afinal de 1995 até 2010 a arrecadação aumentou 1000%, enquanto que a população aumentou apenas 25% (com uma inflação de 90%). Ou seja, dinheiro não faltou. Faltou ao governo o desprendimento característico dos grandes estadistas de pensar mais no futuro do país do que nas eleições. Faltou a coragem de assumir ônus para preparar melhores condições para o sucessor.

Vale lembrar que as mais significativas iniciativas de alterações macroeconômicas do Brasil dos últimos 20 anos foram feitas antes de 2003, como por exemplo, a abertura da economia, o Plano Real, a lei de responsabilidade fiscal, as privatizações, o superávit primário, o regime de metas de inflação, o regime cambial, o repasse das dívidas dos estados e municípios para a união, o saneamento do sistema bancário, entre outros. No governo Lula, no entanto, as melhoras macroeconômicas verificadas ocorreram mais por inércia do que propriamente por iniciativa do governo.

Por enquanto, a população está satisfeita com o bom momento da nossa economia. Mas vale lembrar que já tivemos no regime militar um crescimento de 12% ao ano e sucumbimos logo em seguida justamente porque cometemos o grave erro de achar que tal cenário (de abundância de dólares) duraria para sempre.

Hoje temos um crescimento ancorado no aumento internacional dos preços das commodities, no aumento de crédito, no aumento do mercado interno e na abundância de dólares. O primeiro já arrefeceu um pouco; o segundo já está chegando ao limite e o quarto já se tornou um problema.

Portanto, depois de ter votado na Marina no primeiro turno, declaro meu voto crítico ao Serra. Não apenas por achá-lo mais competente (como aliás, acha o próprio coordenador da campanha da Dilma, Ciro Gomes), mas principalmente pela importância que sua eleição teria para nossa democracia, tanto pela imprescindível a alternância do poder (um dos princípios da democracia), como também, e principalmente, para interromper o processo populista atualmente em curso.

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Os desafios do pós-Lula (macroeconomia)

outubro 10, 2010 22 comentários


Uma das afirmações recorrente nos vários comícios de Lula, mesmo antes da campanha eleitoral, diz o seguinte: “O melhor disso tudo é que o próximo governo terá que fazer mais do que fizemos, caso contrário o povo não vai aceitar”.

Lula estava muito ciente do que estava falando. O próximo presidente vai ter que trabalhar muito não apenas para dar conta de toda expectativa criada para o futuro do país pelo atual governo, como também para por em prática os vários projetos lançados (e já capitalizados politicamente por Lula), para efetuar pelo menos uma das cinco reformas essenciais pendentes e ainda resolver problemas macroeconômicos que começam a dar os primeiros sinais.

Neste post, vamos falar dos principais desafios macroeconômicos do Brasil para os próximos anos. No segundo, falaremos dos principais desafios de investimento e infra-estrutura. No terceiro e último, falaremos dos prós e contras de cada um dos candidatos a presidente sobre cada um dos desafios aqui citados.

A valorização do Real

Não é o maior, mas é, sem dúvida, o problema mais urgente, pois poderá levar muitas empresas brasileiras à falência, caso o dólar continue a cair. O governo Lula tem emitido bilhões e bilhões em títulos da dívida interna a juros de 10,75% ao ano para comprar dólares e assim forçar a valorização da moeda norte-americana. A tentativa funciona num primeiro momento, mas logo exige mais e mais bilhões e assim a dívida interna vai aumentando cada vez mais, assim como as reservas cambiais. O problema é que ambos (dívida e reservas) têm um custo para manter, comprometendo ainda mais o já apertado orçamento e todos os demais indicadores econômicos.

O défict nas contas externas

O ano ainda nem terminou e o Brasil já contabiliza um deficit nas transações com o exterior recorde. Em valores nominais alcançou o maior patamar na comparação do PIB desde o final do governo FHC. O BC espera fechar o ano com um deficit de 2,49% do PIB, o que equivale a US$ 49 bilhões (de Dólares). Para 2011, a previsão é de que o déficit chegue a US$ 60 bilhões (2,78% do PIB).

Os sinais desta tendência já vêm sendo sentidos há algum tempo. O próprio Ciro Gomes, hoje coordenador da campanha da Dilma, previu, quando tentava viabilizar sua candidatura a presidência, uma crise em 2012 decorrente do aumento gradativo deste déficit. Infelizmente, a previsão parece que se confirma a cada dia, como mostra o noticiário.

O aumento da dívida pública

A enorme quantidade de dólares que aportaram no Brasil nos últimos anos (combinado com as maquiagens contábeis do governo Lula) têm passado a falsa impressão de que o problema da dívida está controlado. Isto acontece porque os dólares abundantes turbinam nossas reservas cambiais e estas, por sua vez, puxam a dívida externa para baixo (para pouco mais de R$ 100 bilhões) o que torna seu impacto na dívida pública final (soma da dívida interna e externa) inexpressivo.

No entanto, este cálculo esconde o real tamanho da dívida externa, que atingiu em agosto o recorde de US$ 309,510 bilhões, dos quais US$ 80,916 bilhões são de empréstimos intercompanhias das multinacionais a suas subsidiárias no país. Confira aqui)

Com a dívida interna acontece um outro tipo de maquiagem. O governo vende títulos ao mercado a juros de 10,75% ao ano, empresta a 5% a empresas para pagarem a prazos a perder de vista e não contabiliza tais valores na dívida, pois considera certo o retorno dos empréstimos aos cofres públicos. Na linguagem contábil a coisa é muito simples: um crédito (o pagamento futuro) anula um débito (empréstimo presente). O problema é que os créditos são incertos e os débitos (e os juros) imediatos.

O fato é que se a dívida interna atual continuasse sendo contabilizada com a mesma metodologia da era FHC, a dívida interna em agosto de 2010 já teria ultrapassado a casa de R$ 2,3 trilhão. Se duvidar, consulte a planilha “Divggp.xls” diretamente no site do BC: http://www.bcb.gov.br/?DIVIDADLSP

A taxa Selic

Este é um dos maiores entraves ao crescimento sustentável da nossa economia. Ela é uma das razões para o aporte em massa de bilhões de dólares que chegam ao Brasil todos os dias (já que os juros estão quase zerados no primeiro mundo). Como resultado, temos a gradativa valorização do Real que, por sua vez, diminui a competitividade da nossa indústria, que por sua vez exporta menos, que por sua vez contribui para o déficit nas contas externas. E como se não bastasse este círculo vicioso, quanto mais alta a taxa Selic, mais altos os gastos do governo com os juros da dívida.

E porque então o Governo não baixa a Selic? Um dos motivos é que a taxa é o principal mecanismo de controle da inflação. O segundo motivo é justamente a necessidade de atrair dólares para financiar a imensa dívida pública. E assim se fecha o ciclo com uma grande contradição, pois se de um lado o Governo vende títulos para comprar dólares e forçar a desvalorização do Real, por outro, estimula a entrada de mais dólares com os juros altos.

Como resultado, continuamos comprometendo hoje cerca de 35% do nosso orçamento apertado com juros e amortizações da dívida, 5% a mais que no ano anterior. Confira aqui o último gráfico divulgado pela Auditoria Cidadã da Dívida sobre os gastos do Governo.

O déficit da Previdência

A cada ano o famoso “rombo” da previdência fica maior. A previsão de déficit para este ano é de R$ 46 bilhões, enquanto que para 2011 o rombo já chegaria à casa dos R$ 60 bilhões. Por mais que tente fugir, o próximo Governo vai ter que retardar a aposentadoria de milhões de brasileiros, como, aliás, já admitiram tanto a Dilma quanto o Serra. O problema é que esta é uma tarefa espinhosa, que certamente vai diminuir a popularidade do novo presidente.

Gastos públicos

Uma das principais críticas dos economistas ao atual governo é o seu apetite em aumentar os gastos correntes da máquina pública. Certamente uma política mais austera atenuaria a necessidade de o Banco Central aumentar juros para conter as pressões inflacionárias, além de melhorar os indicadores da maioria dos itens aqui citados. Como resultado, apesar do bom momento em que passa nossa economia e dos recordes sucessivos da arrecadação, o governo tem usado truques contábeis para fechar as contas a cada ano. No final de setembro, por exemplo, o Governo contabilizou como receita R$ 30 bilhões emitidos em títulos para o BDNES, o que significa mais um acréscimo na dívida pública bruta de R$ 2,3 trilhões (segundo a metodologia antiga) ou nos R$ 1,6 trilhão de dívida líquida, como o Governo prefere divulgar.

Poupança Interna

A experiência dos países desenvolvidos mostra que um dos pré-requisitos para se chegar a um desenvolvimento sustentável é ter uma poupança interna acima de 30% do PIB. O Brasil, portanto, está no meio deste caminho. Com um nível baixo de poupança interna o país fica vulnerável a crises, principalmente quando se criam bolhas com o aporte de moedas estrangeiras, como está acontecendo atualmente. Segundo Martin Wolf, principal colunista de economia do jornal britânico Financial Times, “a experiência longa e dolorosa mostra que quando o fluxo líquido de capital estrangeiro fica acima de, digamos, 5% do PIB (e este é o nosso caso), uma crise financeira é provável. Em vez disso, é necessário depender de níveis mais altos de poupança interna”, afirma.

Portanto, é urgente que o próximo governo aumente gradativamente nosso nível de poupança, diminuindo a carga tributária sobre a renda e tornando investimentos de longo prazo mais atraentes, principalmente fundos de aposentadoria.

Investimentos

O Brasil melhorou neste quesito nos últimos anos, porém os 21% do PIB atuais ainda são insuficientes para garantir um crescimento sustentável. O problema é que a melhoria neste quesito nos dois últimos anos aconteceu com dinheiro que deveria ser canalizado para a poupança interna. A partir da crise de 2008 o Governo acertadamente promoveu o incentivo ao consumo. A população foi às compras, porém o nível de poupança caiu de quase 20% para 14,5% do PIB (hoje está na casa dos 16%). Ou seja, um dos desafios do próximo governo é garantir um equilíbrio entre poupança interna e investimentos, estimulando principalmente os investimentos privados já que o BNDES já está trabalhando no limite do endividamento público.

Reforma Tributária

Esta é aquela que todo mundo fala, mas ninguém consegue por em prática. Claro que nenhum governo vai conseguir alterar o regime tributário brasileiro da noite para o dia. Porém é urgente iniciar um processo gradativo de redução da carga tributária, tornando a arrecadação mais eficiente e mais justa, principalmente agora que a economia brasileira começa a perder competitividade com a valorização do Real. Além de eliminar guerras ficais, impostos em cascata e reduzir a tributação de alimentos, é importante que a tributação incida mais no consumo e menos na renda, pois isto ajudaria a aumentar a poupança interna. Enfim, esta reforma tem que ter como principal meta reduzir a informalidade, o que compensaria as eventuais perdas da redução da carga tributária.

Reforma Trabalhista

Esta está diretamente ligada à reforma tributária. Contratar no Brasil é caro justamente porque incidem na renda do empregado uma tributação de 102,3%, distribuídos em 18 tipos de contribuições. Ou seja, o Governo tem aqui uma fonte de arrecadação fácil, porém muito perniciosa para nossa economia, pois não apenas desestimula novas contratações como também inibe o aumento do nível de poupança interna.

Reservas Cambiais

Ao contrário do que muita gente pensa, as reservas cambiais não são uma “poupança” como o Governo tenta vender a idéia. Se fosse, certamente o Governo usaria pelo menos 1/3 dos atuais cerca de US$ 275 bilhões para quitar uma parte de dívida interna, que é hoje um dos principais entraves para o nosso crescimento sustentável.

Elas são o resultado das transações de bens e serviços realizadas pelos brasileiros com o exterior, assim como o fluxo de capitais entre o país e o exterior (empréstimos, financiamentos, aplicações, investimentos diretos, etc), além do acúmulo de dólares comprados pelo BC, operação esta cada vez mais freqüente uma vez que o excesso de dólar no mercado valoriza o Real e dificulta nossas exportações.

O problema é que existe um custo para manter as reservas (hoje estimado pelo Bradesco em US$ 27 bilhões anuais) e o Brasil já ultrapassou em quase 1/3 o valor considerado ideal pelos especialistas. Ou seja, o Governo vai ter que encontrar outras formas de valorizar o dólar, pois o custo das reservas já se tornou um grande problema, tanto que que alguns economistas já começa a chamar nossas reservas de “dívida invisível”.

CONCLUSÃO

Como todos podem ver, há muito por fazer na nossa macroeconomia. A sensação que fica é que o governo atual poderia ter avançado muito mais em todas estas áreas se tivesse um caráter menos imediatista.

A pressa em mostrar resultados de olho no “plebiscito” de 2010 levou o Governo Lula a promover um crescimento artificial, financiado com a emissão de títulos públicos, os quais comprometem o nosso futuro. A aceleração do crescimento veio, porém a dívida pública que hoje deveria estar quase quitada com o pagamento do superávit primário continuou a crescer em uma velocidade superior a era FHC. Se o Governo tivesse diminuído a dívida pública para pelo menos a metade do que temos hoje, certamente todos o indicadores citados acima não teriam tanta gravidade.

Para ver a segunda parte desta série, clique aqui.