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Um retrocesso na nossa democracia

novembro 1, 2010 40 comentários

Lula fazendo campanha para Dilma

Finalmente terminou a eleição mais longa, mais chata, mais superficial, mais radicalizada, mais debochada, mais manipulada, mais previsível, mais “religiosa” e mais baixa da história do Brasil. Difícil entender como, em meio a tanto progresso nos últimos anos, conseguimos retroceder naquela que é a nossa principal conquista das últimas décadas: a democracia.

E como chegamos a tal ponto? Pra começar, a campanha foi antecipada para o ano seguinte às eleições de 2006 com o lançamento do espalhafatoso PAC e, de quebra, da “mãe do PAC”: Dilma Roussef. Quem não lembra do Lula levantando a mão da candidata ainda desconhecida nos vários comícios que fez por todo o país a partir de 2007, anunciando as obras do PAC?

Um ano depois, Lula sedimentou o apoio a sua candidata no famoso encontro de prefeitos em Brasília, financiado com R$ 2,4 milhões dos cofres públicos. A principal moeda de troca: as obras do PAC.

Paralelamente, o cabo eleitoral Lula costurou o apoio da maioria dos partidos, principalmente o PMDB, a grande prostituta da política nacional, que rendeu a maioria do tempo de TV para a candidata governista. O preço pago foi alto, pois Lula teve que defender o indefensável Sarney na crise do Senado, colocando-o, inclusive, acima da lei. Mas como o PT aderiu há muito tempo ao princípio maquiavélico de que “os fins justificam os meios”, Lula conseguiu colocar uma cortina de fumaça sobre a crise do Senado com o anúncio do Pré-sal e com a compra dos caças franceses, cuja conta, como já havia previsto aqui, vai passar para a sucessora.

Na TV, as estatais deram uma força à campanha da Dilma, sempre difundindo a imagem do Brasil potência. Nos comícios, o presidente / cabo eleitoral debochou da legislação e das instituições, dividiu o país, atacou a imprensa, ameaçou o Ministério Público. Nos pronunciamentos oficiais, idem. No guia eleitoral, mentira e dissimulação, como antes nunca visto na história deste país.

E a oposição? Perdida em todo este tempo. A começar pela equivocada crítica a “marolinha” do presidente. Ora, todo mundo sabia que a crise era grave e que o presidente estava fazendo o seu papel que era acalmar a população, já que parte da crise, pelo menos nos primeiros três meses, teve um forte combustível psicológico. A crise passou e a oposição ficou com a pecha de torcer pelo “quanto pior melhor”, uma especialidade do PT quando oposição.

Em seguida, veio a demora em decidir qual o candidato da oposição, erro repetido na decisão do vice, escolhido em meio a uma crise entre PSDB e DEM, praticamente às vésperas do registro dos candidatos no TSE.

A escolha de Serra como candidato foi mais uma bola fora da oposição. Claro que ele tinha maiores índices nas pesquisas que o Aécio, mas já era sabido também que os 42% de intenções de votos em Serra eram o teto máximo do candidato. Dificilmente conseguiria ampliar sua votação, ainda mais com dois problemas tão graves a serem explorados pelos governistas: o fato do candidato não cumprir sua palavra registrada em cartório e as irregularidades na licitação do rodoanel (e recentemente o escândalo do Paulo Preto).

Também não acredito que o Aécio tivesse condições de vencer estas eleições. Mas sua candidatura certamente o tornaria muito mais conhecido em todo o Brasil, o que serviria para alavancar sua campanha em 2014. Além de ter um maior potencial de crescimento que Serra, o mineiro poderia explorar no guia a tentativa do presidente Lula de cooptá-lo para ser seu sucessor. Isto não só diminuiria a transferência de votos para Dilma (já que isto a colocaria na condição de plano B de Lula), como salientaria o compromisso do Aécio com os ideais tucanos, contestados por Lula na oposição, porém agora defendidos pelo PT da situação.

Outro ponto a favor de Aécio seria o apoio declarado de Ciro Gomes que, na época, quando ostentava ainda consideráveis 18% nas pesquisas, chegou a prometer desistir da disputa caso o candidato tucano fosse o Aécio.

Por último, Aécio enfraqueceria o teor de comparações entre os governos Lula e FHC, uma vez que o mineiro não teve uma participação tão efetiva no governo quanto Serra.

Voltando a Serra, como explicar a fatídica tentativa do candidato da oposição em pousar ao lado do nosso populista presidente? E como explicar a tentativa de esconder FHC da campanha? E como explicar a incompetência em combater as comparações descontextualizadas da campanha governista? E como explicar a contradição entre o discurso de austeridade com as promessas eleitoreiras de aumentar o mínimo e aposentadorias?

E o DEM? Infelizmente, apesar do esforço das novas lideranças para mudar a imagem deste decadente partido, o DEM mostrou o estrago que ainda é capaz de fazer se tiver uma oportunidade de chegar ao poder. O Arruda que o diga.

Enfim, a oposição foi vítima do populismo de Lula, mas também dos próprios erros, entre os quais o mais grave, na minha opinião, foi não defender o legado de FHC nos oito anos de Lula e, de quebra, desistir de combater o mito Lula, forjado em mentiras e meias verdades.

Diante de tal quadro, considero uma vitória da oposição não apenas ter chegado ao segundo turno (graças a Marina, vale salientar), como também perder por uma margem de apenas 12 pontos percentuais.

Com uma derrota tão iminente, o PSDB poderia aproveitar muito bem o espaço do guia eleitoral para desmistificar Lula, mostrando as mentiras da publicidade oficial e alertando a população para os verdadeiros problemas do país, os quais foram completamente relegados da campanha devido à disputa de promessas dos candidatos na qual foi transformada esta eleição pelos marketeiros.

À oposição resta, portanto, juntar os cacos do que sobrou (principalmente do aparente mal estar entre Serra e Aécio) e iniciar um trabalho de desmistificação de Lula, sem o qual continuará sem a menor chance também em 2014. Pessoalmente acho que faltou empenho do Aécio na campanha de Serra, mas certamente isto foi consequência da complicada preferência do PSDB que preteriu Aécio e jogou Minas Gerais no colo da Dilma. Certamente São Paulo não receberia melhor a escolha de Aécio do que Minas recebeu a escolha de Serra, afinal Aécio tinha uma aprovação muito mais expressiva do seu governo.

Enfim, demos um passo para trás na nossa democracia. Não apenas por termos perdido a oportunidade de fazer valer um dos princípios elementares da democracia que é a alternância do poder, principalmente em um momento em que nosso presidente populista merecia um sonoro não da população. Mas, e principalmente, por termos dado o aval ao plebiscito em que foi transformada esta eleição. E o grande responsável por este retrocesso é o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que teve todas as condições políticas e apoio popular para melhorar de fato a nossa política, mas que, infelizmente, colocou seus projetos pessoais acima dos interesses do país e repetiu a velha política do toma-la-dá-cá, um dos vícios da nossa política que mais criticou quando oposição, porém, no poder, não apenas repetiu como o tornou uma coisa absolutamente “normal”.

Um olhar estrangeiro sobre a América Latina e o Brasil

Quintal de Ninguém - O crescimento da América Latina / O Brasil decolaA revista britânica “The Economist” publicou na semana passada uma interessante reportagem especial sobre a ascensão da América Latina no cenário econômico mundial. Com o título “Quintal de ninguém – O crescimento da América Latina”, os ingleses, distantes dos radicalismos políticos que obscurecem a visão da nossa realidade, ratificam o que reafirmamos aqui quase que diariamente: o bom momento econômico pelo qual o Brasil e a América Latina passam hoje é fruto de um processo histórico, iniciado na década de 90 com o controle da inflação e as reformas econômicas promovidas no período pós-ditaduras, cujos frutos estão sendo colhidos agora, combinado com o bom momento da economia global que  quase duplicou o PIB mundial entre 2003 e 2008, pulando de US$ 33 trilhões, em 2002, para US$ 60,8 trilhões, em 2008. Vale salientar que em todo período FHC, o PIB mundial aumentou apenas US$ 3 trilhões.

O Brasil, segundo a reportagem, teve um contexto ainda mais positivo por ter sido citado, em 2001, pelo economista Jim O’Neil, do banco de investimentos Goldman Sachs, como um dos quatro grandes países emergentes candidatos a potências nas próximas décadas, ao lado da China, Rússia e Índia. Claro que o termo BRICs só veio a ser popularizado anos depois, já no Governo Lula, porém, fica bem claro que a indicação do Brasil aos investidores foi feita com base na percepção de que FHC estava criando as condições necessárias para o Brasil decolar.

O impacto da crise de 2008

Além de citar o forte crescimento do Brasil a partir de 2007, a revista destaca também a “forte recuperação do continente depois da crise econômica e financeira de 2008/2009” (ao contrário dos EUA e da Europa que ainda cambaleiam). “Pela primeira vez o continente foi apenas uma testemunha inocente e não um protagonista da crise”, afirmou a reportagem, que cita ainda a previsão de um crescimento médio de 5% para 2010, índice este que poderia ser ainda maior caso a Venezuela, o Haiti e Cuba não estivessem em recessão (por motivos óbvios, claro).

Ou seja, a revista ratifica também o que falamos aqui sobre as diferenças sobre os impactos das diversas crises dos anos 90 que contaminavam toda a América Latina e a crise de 2008, cujo epicentro foi no primeiro mundo. Ao contrário das outras crises que provocavam a fuga imediata dos investidores para os portos seguros das economias do primeiro mundo (e consequentemente a disparada do Dólar, elevação do risco país e dos juros para conter a fuga de capitais e o câmbio), desta vez não houve fugas de capitais (já que os “portos seguros” não estavam mais tão seguros quanto antes). Com exceção do primeiro mês de pânico global, nossa economia rapidamente retomou a normalidade, o dólar não disparou, os investidores não fugiram e o risco país oscilou muito pouco. No final, os países da América Latina e dos BRICs terminaram até beneficiados com a crise, pois passaram a ser também atores globais (especialmente a China), assumindo a responsabilidade de ajudar a mover locomotiva da economia global nos dois últimos anos.

Redução da pobreza

A revista cita ainda as “dezenas de milhões” de latinos americanos que saíram da pobreza nos últimos anos, o que tornou seus mercados internos cada vez mais atrativos para as grandes multinacionais, as quais trouxeram também mais empregos, alimentando assim ainda mais o ciclo virtuoso do desenvolvimento.

Da mesma forma que milhões ascenderam economicamente com o controle da inflação (no Brasil e na América Latina), nos últimos anos mais de 40 milhões de latino-americanos também ultrapassaram a linha da pobreza com os sucessivos aumentos do PIB e com a ajuda dos programas sociais implantados pelos diversos governos desde o final da década de 90, entre os quais o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação, que o Governo Lula tomou para si todos os méritos ao unificá-los com o nome de Bolsa Família.

O Brasil decola

Em 2009 a mesma revista já havia publicado uma matéria especial sobre o Brasil com o título “O Brasil decola”. Ao contrário do marketing do PT que tenta vender a idéia de que tudo que aconteceu de bom no Brasil começou em 2003, a revista cita como a gênese do sucesso brasileiro as reformas implantadas nos anos anteriores a era Lula (desde a democratização), salientando inclusive a sorte de Lula ter tido ao assumir o governo em um momento de valorização das commodities (principais produtos de exportação brasileiros) e por ter tido FHC como antecessor, a quem coube o ônus de implementar reformas impopulares na nossa economia, cujos frutos são colhidos no Governo Lula. Segue o trecho da reportagem:

“De fato, a ascensão do Brasil tem acontecido de forma gradativa, não súbita (como o PT tenta alardear). Os primeiros passos foram dados na década de 1990 quando, depois que todas as opções se esgotaram, o país adotou um conjunto sensato de políticas econômicas. A inflação foi domada, e os governos estaduais e federal, esbanjadores, foram obrigados por lei a conter seus endividamentos. O Banco Central ganhou autonomia, encarregado de manter a inflação baixa e garantir que os bancos evitassem as “aventuras” que causaram os danos à Grã-Bretanha e Estados Unidos (em referência a crise financeira de 2008). A economia foi aberta ao comércio e aos investimento estrangeiros e muitas empresas estatais foram privatizadas. Tudo isso ajudou a semear um grupo de novas e ambiciosas empresas multinacionais brasileiras. Algumas são ex-estatais que floresceram na medida em que puderam operar livres do cabresto do governo”.

Ao Governo Lula, coube a tarefa bem mais fácil de estimular a indústria nacional (especialmente a naval), já que contava agora com recordes sucessivos de arrecadação, decorrente do crescimento das empresas brasileiras no Brasil e no mundo.

Alertas

Assim como na reportagem de 2009, quando a revista apontava o rápido crescimento dos gastos públicos no Brasil e o pouco investimento em infra-estrutura como principais entraves ao crescimento sustentável do Brasil, nesta última a revista também adverte sobre o risco do continente “cair na autocomplacência”.

O risco se deve ao fato de que, embora a produtividade latino-americana “cresça mais rápido do que em qualquer outro lugar”, a região “não poupa nem investe o suficiente”.

No caso específico do Brasil, a revista citou ainda (na reportagem de 2009) a arrogância de Lula como um dos principais problemas do país. É esta arrogância que divide o país entre vermelhos e azuis, entre o bem (Lula) e o mal (a oposição) e ofusca o verdadeiro debate que deveria ser travado nestas eleições: a qualidade e a sustentabilidade do nosso crescimento nos próximos anos.

Diante de tal quadro, a revista aponta a vitória da candidata Dilma como certa, salientando que, ao contrário do que a publicidade do Governo tenta passar, ela encontrará dificuldades para governar com um PT ainda maior que surgirá das próximas eleições. À oposição resta lamentar os erros cometidos nos últimos oito anos, quando se acovardaram em defender o Governo FHC e, ao mesmo tempo, combater as mentiras e meias verdades que construíram o mito Lula.

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Fontes:

  • O link da tradução da reportagem “O Brasil decola” está disponível aqui.
  • O link original da reportagem da revista “The Economist” sobre a América Latina ainda não está disponível na web. Publico então o link da notícia divulgada pela agência AFP.
  • O link sobre a vitória de Dilma no primeiro turno está disponível aqui.

Lula e a “Mídia Golpista” (PARTE 1)

imprensa

Nos últimos meses a Internet tem se transformado em um grande campo de batalha ideológica entre os defensores incondicionais do Presidente Lula e seus os críticos. Na verdade, este é um processo que vem ocorrendo em menor grau desde o escândalo do Mensalão, mas que arrefeceu após as eleições de 2006. Recentemente a batalha recomeçou devido principalmente a cinco graves erros políticos do Governo Lula.

Erro nº 1: o eterno palanque

O presidente, desde que assumiu o governo, nunca desceu do palanque. Em todas as oportunidades que teve de falar em público, procurou sempre se apoderar de todos os méritos pelo bom momento econômico que vive o país, fazendo comparações descontextualizadas em relação ao governo anterior, apesar de não mudar uma vírgula das políticas “neoliberais” herdadas e, paradoxalmente, tão criticadas quando oposição.

Os discursos embalados pelo famoso “nunca na história deste país” surtiram efeito e a popularidade do presidente foi ainda mais acentuada com a unificação e ampliação dos programas sociais implantados pelo governo anterior, rebatizado agora de Bolsa Família.

Claro que uma parcela menor da população percebeu tais manobras políticas do presidente, principalmente entre os jornalistas. Surgia então o embrião do que os partidários do presidente viriam a chamar mais adiante de “Mídia Golpista”.

Erro nº 2: o desejo expresso de presidente de controlar a imprensa

Já nas primeiras críticas ao seu governo, o presidente Lula fez questão de expressar seu desejo de criar “algum mecanismo de controle externo da mídia”. O presidente já mostrava, ainda no seu primeiro mandato, sua simpatia pelo autoritarismo que começava a ser implantado na Venezuela de Hugo Chaves.

O assunto, claro, repercutiu muito mal na imprensa traumatizada com as duas décadas de regime militar. O embrião da “Mídia Golpista” se desenvolveu mais um pouco.

Erro nº 3: a antecipação da campanha

Os primeiros indícios da antecipação da campanha eleitoral foram as sucessivas manobras em direção ao terceiro mandato. Derrotada a proposta, o Governo partiu para o plano B: o lançamento da ministra Dilma Roussef como candidata à sucessão. O palanque foi ainda mais ampliando, tanto com a presença da candidata, quanto pelo badalado Plano de Aceleração do Crescimento. Surgia então a “mãe do PAC”.

Se o Bolsa Família encantou as massas, o PAC encantou os prefeitos e governadores, que viram nos bilhões anunciados pelo Governo a oportunidade de reforçarem suas “realizações” e, de quebra, seus votos nas eleições municipais.  Todo mundo queria pousar na foto ao lado do presidente. No encontro de prefeitos em Brasília, por exemplo, foi disponibilizado até um estúdio de fotografias para criar montagens de candidatos ao lado de Lula. Mais uma vez a tática funcionou e o presidente atingiu os seus comemorados 80% de aprovação.

Claro que uma parcela da população continuou a perceber tais manobras. As seções de comentários dos grandes colunistas políticos começaram a receber cada vez mais comentários de cidadãos cada vez mais críticos, endossando os artigos cada vez mais contundentes sobre os excessos do presidente.

Erro nº 4: a relação promíscua com o PMDB

O fortalecimento do PMDB nas eleições municipais de 2008 levou também o partido “amigo do poder” a aumentar seu número de ministérios, além de cargos importantes nas estatais e no Congresso. O presidente, no auge dos seus “80%”, cedeu tudo que o ressurgido das cinzas Renan Calheiros pediu. Em troca, claro, o partidão dava-lhe o apoio incondicional ao projeto de perpetuação no poder do Governo Lula.

Claro que uma parcela da população percebia tais manobras e já não conseguia calar diante de tantas aberrações políticas. E aí veio a gota d’água: a interferência do presidente Lula na eleição do candidato José Sarney à presidência do Senado, preterindo, inclusive, o candidato do seu próprio partido.

A esta altura, alguns colunistas importantes já havia assumido definitivamente uma posição de oposição ao governo, como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, por exemplo. Em contraposição, alguns colunistas financiados pelo Governo, como Paulo Henrique Amorim, Nassif e Azenha, por exemplo, escancararam de vez a campanha política pró endeusamento de Lula e, de quebra, da candidata Dilma.

rro nº 5: apoio incondicional a Sarney

A crise no Senado já se arrastava há anos, tendo inclusive dois presidentes consecutivos (Jáder Barbalho e Renan Calheiros – ambos do PMDB) renunciado em meio a uma sucessão de escândalos. A eleição da Sarney foi apenas mais um episódio da crise, agravada com as manobras do presidente Lula para elegê-lo e com a sua indisfarçável vaidade ao fingir que não queria ser candidato, repetindo a velha retórica coronelista de que foi “convocado” pela vontade da maioria para assumir o cargo.

Ferido, o PT recolheu-se a posição de coadjuvante no jogo político do Senado. E aí começaram a surgir as primeiras de uma sucessão interminável de denúncias contra o velho coronel (comenta-se nos bastidores que as primeiras denúncias teriam vindo do próprio PT descontente com a manobra para eleger Sarney).

Como na retórica coronelista a melhor defesa é o ataque, Sarney atribuiu as denúncias a uma terrível “campanha midiática”. Lula, confiante nos seus 80% de popularidade, fez coro ao presidente do STF, Gilmar Mendes, na crítica ao “denuncismo” da imprensa e fez questão de diferenciar Sarney do cidadão comum, tendo chegado a aconselhar o Procurador Geral da República a ter cuidado com as “biografias” dos investigados (falando inclusive de uma possível “castração de poder” do Ministério Público).

Rasgando o diploma de jornalista

O acirramento das disputas políticas na Internet alterou também a forma de fazer jornalismo. A responsabilidade em mostrar ambos os lados da notícia deixou de ser uma preocupação. A parcialidade de ambos os lados fica cada dia mais evidente. Entre os críticos do Governo, há uma grande preocupação com a liberdade de imprensa, cada vez mais suprimida na Venezuela de Hugo Chaves, o grande representante do “neo-socialismo” do século XXI, linha ideológica defendida por Lula. Do lado governista, as “conspirações da direita golpista” seriam as reais razões da crise do Senado e da CPI da Petrobrás.

Para fazer frente à maioria dos colunistas de oposição, os colunistas governistas acirraram os discursos a tal ponto que a os títulos das boas notícias da área econômica são sempre acompanhados agora de um inacreditável “Bye, bye Serra!”.

Os apelidos e termos pejorativos tornaram-se cada vez mais comuns. Os lulistas são chamados agora de “petralhas”, enquanto que os anti-lula são chamados de “demotucanos”, “tucanalhas”, etc.

A imaginação de conspirações também chegou às raias da loucura. Paulo Henrique Amorim, por exemplo, chegou a alardear em seu blog a seguinte “conspiração”: “TIRAR SARNEY É O GOLPE DE ESTADO DE DIREITA”. Segundo agora “blogueiro”, o PIG (Partido da Imprensa Golpista) quer derrubar Lula. Se Lula cair, assume o vice. Se o vice morrer, assume Temer. Se Temer recusar(?), assumiria Perillo (já contando que Sarney tivesse renunciado por causa da “campanha midiática” em curso – mais um “se”) e então, o mentor de tudo isso, o impopular Gilmar Mendes (que o PHA quer a todo custo jogar para a oposição, quando, na verdade, suas idéias estão em plena sintonia com as de Lula e do Sarney, no que concerne a diferenciação de indivíduos com ou sem “biografia”), assumiria por pelo menos 48 horas!!! Neste pequeno intervalo de tempo Gilmar Mendes teria então uma lista de “tarefas urgentes”, entre as quais a principal seria a privatização da Petrobrás e a venda do Pré-sal!  (Se duvidarem, está aqui o link http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=14876)

E o mais surreal disso tudo é que existem mais 100 comentários de leitores “alarmados” com a iminência de tamanho “golpe”. Tentei postar alguns comentários lá, mas todos foram censurados. Ao procurar o email do “jornalista” para lhe dirigir uma crítica direta me defrontei com sua apresentação em “Quem Somos”, onde PHA se diz um representante de um novo jornalismo “colaboralivo” e “DEMOCRÁTICO”!

Para ver a segunda parte deste artigo, clique aqui.