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Um retrocesso na nossa democracia

novembro 1, 2010 40 comentários

Lula fazendo campanha para Dilma

Finalmente terminou a eleição mais longa, mais chata, mais superficial, mais radicalizada, mais debochada, mais manipulada, mais previsível, mais “religiosa” e mais baixa da história do Brasil. Difícil entender como, em meio a tanto progresso nos últimos anos, conseguimos retroceder naquela que é a nossa principal conquista das últimas décadas: a democracia.

E como chegamos a tal ponto? Pra começar, a campanha foi antecipada para o ano seguinte às eleições de 2006 com o lançamento do espalhafatoso PAC e, de quebra, da “mãe do PAC”: Dilma Roussef. Quem não lembra do Lula levantando a mão da candidata ainda desconhecida nos vários comícios que fez por todo o país a partir de 2007, anunciando as obras do PAC?

Um ano depois, Lula sedimentou o apoio a sua candidata no famoso encontro de prefeitos em Brasília, financiado com R$ 2,4 milhões dos cofres públicos. A principal moeda de troca: as obras do PAC.

Paralelamente, o cabo eleitoral Lula costurou o apoio da maioria dos partidos, principalmente o PMDB, a grande prostituta da política nacional, que rendeu a maioria do tempo de TV para a candidata governista. O preço pago foi alto, pois Lula teve que defender o indefensável Sarney na crise do Senado, colocando-o, inclusive, acima da lei. Mas como o PT aderiu há muito tempo ao princípio maquiavélico de que “os fins justificam os meios”, Lula conseguiu colocar uma cortina de fumaça sobre a crise do Senado com o anúncio do Pré-sal e com a compra dos caças franceses, cuja conta, como já havia previsto aqui, vai passar para a sucessora.

Na TV, as estatais deram uma força à campanha da Dilma, sempre difundindo a imagem do Brasil potência. Nos comícios, o presidente / cabo eleitoral debochou da legislação e das instituições, dividiu o país, atacou a imprensa, ameaçou o Ministério Público. Nos pronunciamentos oficiais, idem. No guia eleitoral, mentira e dissimulação, como antes nunca visto na história deste país.

E a oposição? Perdida em todo este tempo. A começar pela equivocada crítica a “marolinha” do presidente. Ora, todo mundo sabia que a crise era grave e que o presidente estava fazendo o seu papel que era acalmar a população, já que parte da crise, pelo menos nos primeiros três meses, teve um forte combustível psicológico. A crise passou e a oposição ficou com a pecha de torcer pelo “quanto pior melhor”, uma especialidade do PT quando oposição.

Em seguida, veio a demora em decidir qual o candidato da oposição, erro repetido na decisão do vice, escolhido em meio a uma crise entre PSDB e DEM, praticamente às vésperas do registro dos candidatos no TSE.

A escolha de Serra como candidato foi mais uma bola fora da oposição. Claro que ele tinha maiores índices nas pesquisas que o Aécio, mas já era sabido também que os 42% de intenções de votos em Serra eram o teto máximo do candidato. Dificilmente conseguiria ampliar sua votação, ainda mais com dois problemas tão graves a serem explorados pelos governistas: o fato do candidato não cumprir sua palavra registrada em cartório e as irregularidades na licitação do rodoanel (e recentemente o escândalo do Paulo Preto).

Também não acredito que o Aécio tivesse condições de vencer estas eleições. Mas sua candidatura certamente o tornaria muito mais conhecido em todo o Brasil, o que serviria para alavancar sua campanha em 2014. Além de ter um maior potencial de crescimento que Serra, o mineiro poderia explorar no guia a tentativa do presidente Lula de cooptá-lo para ser seu sucessor. Isto não só diminuiria a transferência de votos para Dilma (já que isto a colocaria na condição de plano B de Lula), como salientaria o compromisso do Aécio com os ideais tucanos, contestados por Lula na oposição, porém agora defendidos pelo PT da situação.

Outro ponto a favor de Aécio seria o apoio declarado de Ciro Gomes que, na época, quando ostentava ainda consideráveis 18% nas pesquisas, chegou a prometer desistir da disputa caso o candidato tucano fosse o Aécio.

Por último, Aécio enfraqueceria o teor de comparações entre os governos Lula e FHC, uma vez que o mineiro não teve uma participação tão efetiva no governo quanto Serra.

Voltando a Serra, como explicar a fatídica tentativa do candidato da oposição em pousar ao lado do nosso populista presidente? E como explicar a tentativa de esconder FHC da campanha? E como explicar a incompetência em combater as comparações descontextualizadas da campanha governista? E como explicar a contradição entre o discurso de austeridade com as promessas eleitoreiras de aumentar o mínimo e aposentadorias?

E o DEM? Infelizmente, apesar do esforço das novas lideranças para mudar a imagem deste decadente partido, o DEM mostrou o estrago que ainda é capaz de fazer se tiver uma oportunidade de chegar ao poder. O Arruda que o diga.

Enfim, a oposição foi vítima do populismo de Lula, mas também dos próprios erros, entre os quais o mais grave, na minha opinião, foi não defender o legado de FHC nos oito anos de Lula e, de quebra, desistir de combater o mito Lula, forjado em mentiras e meias verdades.

Diante de tal quadro, considero uma vitória da oposição não apenas ter chegado ao segundo turno (graças a Marina, vale salientar), como também perder por uma margem de apenas 12 pontos percentuais.

Com uma derrota tão iminente, o PSDB poderia aproveitar muito bem o espaço do guia eleitoral para desmistificar Lula, mostrando as mentiras da publicidade oficial e alertando a população para os verdadeiros problemas do país, os quais foram completamente relegados da campanha devido à disputa de promessas dos candidatos na qual foi transformada esta eleição pelos marketeiros.

À oposição resta, portanto, juntar os cacos do que sobrou (principalmente do aparente mal estar entre Serra e Aécio) e iniciar um trabalho de desmistificação de Lula, sem o qual continuará sem a menor chance também em 2014. Pessoalmente acho que faltou empenho do Aécio na campanha de Serra, mas certamente isto foi consequência da complicada preferência do PSDB que preteriu Aécio e jogou Minas Gerais no colo da Dilma. Certamente São Paulo não receberia melhor a escolha de Aécio do que Minas recebeu a escolha de Serra, afinal Aécio tinha uma aprovação muito mais expressiva do seu governo.

Enfim, demos um passo para trás na nossa democracia. Não apenas por termos perdido a oportunidade de fazer valer um dos princípios elementares da democracia que é a alternância do poder, principalmente em um momento em que nosso presidente populista merecia um sonoro não da população. Mas, e principalmente, por termos dado o aval ao plebiscito em que foi transformada esta eleição. E o grande responsável por este retrocesso é o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que teve todas as condições políticas e apoio popular para melhorar de fato a nossa política, mas que, infelizmente, colocou seus projetos pessoais acima dos interesses do país e repetiu a velha política do toma-la-dá-cá, um dos vícios da nossa política que mais criticou quando oposição, porém, no poder, não apenas repetiu como o tornou uma coisa absolutamente “normal”.

O “cara” do “cara”

Lula: o "cara" do "cara"
Em um comício realizado nesta quarta-feira, na Bahia, Lula proferiu mais uma de suas pérolas. Segundo o comentarista Carlos Sardemberg, na Rádio CBN, ele teria dito textualmente o seguinte:

– Obama falou que eu era o “cara” há dois anos e nem sabia das pesquisas de popularidade que estão saindo agora. Se ele soubesse iria falar: não é que este “cara” não é o “cara” do “cara”!!!

Vejam a que ponto chegamos. Como se não bastasse o absurdo do presidente participar de comícios, descumprir as leis, desafiar as instituições democráticas, ainda temos que suportar o “cara” se elevar ao quadrado em mais uma corriqueira seção de autoglorificação.

Como continuo sem tempo (e sem saco para escrever), vou postar aqui uma boa entrevista publicada na Veja sobre este personagem chamado Lula, às vésperas de sua sonhada eleição plebicitária.

Lula não suporta críticas: Atrapalharam o seu personagem

Revista Veja ed. 2184

0 filósofo Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Unicamp, notabilizou-se por ser um dos primeiros intelectuais brasileiros a apontar os desvios autoritários do governo Lula. Na semana passada, ele recebeu VEJA em sua casa, em São Paulo, e concedeu a entrevista que se segue, em que fala com a coragem e a lucidez costumeiras sobre liberdade de imprensa, petismo e autoritarismo.

A que o senhor atribui os ataques do governo à liberdade de imprensa? Nos últimos anos, o presidente Lula se acostumou a não ser fiscalizado. Os parlamentares, como só pensam em receber recursos do Executivo, abriram mão de sua função de vigiar o governo. 0 Tribunal de Contas da União tentou assumir a função, mas foi silenciado. 0 Ministério Público Federal, inexplicavelmente, desistiu de investigar. A Polícia Federal está sob controle. Nesse cenário, a única fiscalização sobre o governo é feita pela imprensa. Por isso, a preocupação em controlá-la.

O exercício da fiscalização é o que mais incomoda o governo? Eu gosto muito da figura criada pelo alemão Erich Auerbach, no livro Mlmesis: a realidade é um imenso palco com inúmeras cenas se desenrolando. 0 que faz o propagandista? Escolhe uma que lhe interesse, joga o holofote sobre ela e deixa as demais na sombra. 0 que o espectador está vendo é real. Mas alerta Auerbach: “Da realidade faz parte toda a verdade”. Ou seja, para que aquela cena específica tenha seu real significado, seria preciso iluminar todas as outras cenas também. Lula diz: “A economia vai bem”, e ilumina um determinado aspecto da economia. Os dados são verdadeiros, mas essa não é toda a realidade. Lula se irrita com a imprensa, porque ela coloca holofotes sobre cenas que ele gostaria de manter escondidas, na sombra. 0 stalinismo fazia isso quando apagava a imagem de Trotsky de fotografias históricas. 0 ideal do pensamento autoritário é este: tirar da foto aquilo que lhe é desagradável. Lula quer tirar da foto as denúncias de conupção em seu governo.

De onde viria esse pensamento? Lula nunca foi um estudioso das teorias de esquerda… Isso vem desde seus tempos de sindicalista, quando mobilizava massas. Não é um conhecimento ao modo da esquerda clássica, que passaria pelo estudo da obra do italiano Antonio Gramsci ou da prática do revolucionário russo Lenin. É um conhecimento intuitivo. Digo isso porque, quando ele encontra resistências na imprensa, considera aquilo um desserviço direto à sua personalidade. Nesse ponto, ele está mais próximo dos caudilhos sul-americanos. Todos, como o argentino Juan Perón, sabiam muito bem fazer propaganda do personagem que encarnavam. Falavam com as massas criando imagens, símbolos, figurações. Eis a razão pela qual Lula não suporta ser criticado: atrapalha o seu personagem. Qualquer um que lhe faça criticas passa a ser visto como inimigo.

Esse fenômeno já ocorreu antes no Brasil? Sim, o presidencialismo brasileiro está repleto de personagens messiânicos que viviam de propaganda: Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Fernando Collor e, agora, Luiz Inácio Lula da Silva. Eles conseguiram descer fundo na consciência popular com ajuda de muita publicidade. Getúlio é lembrado até hoje como “pai dos pobres”, porque criou um órgão chamado DIR o Departamento de Imprensa e Propaganda, que organizou uma campanha altamente competente de persuasão de massas. Jânio e Collor não conseguiram atingir esse patamar. Lula tenta seguir o caminho getulista.

Reiteradamente, o governo organiza “conselhos nacionais” para debater a liberdade de imprensa e as comunicações. Quão legítimos eles são? Esses conselhos não passam de grupos organizados pelo governo petista para tratar de legitimar seus pontos de vista sobre temas específicos. Eles não têm nada de democrático, não representam a sociedade. São instrumentos criados e manobrados pelo PT para pressionar as instituições.

Os petistas têm vociferado, nas últimas semanas, contra o que chamam de “partido da mídia golpista”, que abarcaria toda a grande imprensa. A que se deve esse discurso? É uma questão que merece reflexão. Em primeiro lugar, a imprensa como monobloco não existe. Ela tem várias tendências e facetas. Por outro lado, a relação de uma revista ou de um jornal com seus leitores não é a mesma de um partido com seus filiados, isso é óbvio. Portanto, ao contrário do que diz Lula, a imprensa não é um partido e não funciona como tal. O “partido da mídia”, que ele costuma citar, é uma invenção do PT. É um ente que só existe na propaganda petista. O que há de comum entre VEJA e Globo, por exemplo? Quase nada. São interesses diferentes, tanto do ponto de vista comercial quanto do estratégico. Quando o PT e o Lula dizem que existe esta entidade, a “mídia golpista”, e que ela forma um partido, isso não passa de uma construção mental.

Até que ponto a estratégia petista de atacar a imprensa põe em risco a democracia? Se nós tivermos de perguntar ao PT o que podemos escrever, acabou a liberdade de expressão e, com ela, a democracia. Uma coisa semelhante ocorreu nesta semana no México: um jornal que fica em uma área dominada por quadrilhas de narcotraficantes, em Chihuahua, desistiu de ser independente porque seus jornalistas estavam sendo assassinados. Em sua primeira página, perguntou aos traficantes o que eles gostariam de ver publicado no jornal para que os ataques parassem. A partir desse ponto, é possível afirmar que não há mais liberdade de imprensa no México e, portanto, não há mais democracia. No Brasil, podemos caminhar muito rapidamente para isso. Se tivermos de pedir licença ao PT para poder dizer o que nós pensamos ou denunciar os erros do governo, a democracia estará morta.

Qual será o papel do presidente Lula no jogo político nos próximos quatro anos? Caso sua candidata vença, ele tentará tutelá-la, certamente. Mas, em qualquer situação, Lula terá quatro anos para fazer propaganda de si mesmo. E contará com a cobertura da imprensa para ecoar suas declarações. A imprensa é suicida nesse sentido. Dará voz a quem quer controlá-la. Com isso, ele passará os próximos quatro anos preparando a sua volta ao poder. E monitorando alterações estruturais no estado brasileiro que lhe permitam um novo governo sem tantas amarras, como as que a imprensa livre, a seu ver, impõe. Terá as mãos livres para preparar seu retorno em um governo ainda mais autoritário.

Desabando novamente

novembro 7, 2009 7 comentários

desabafo

Iniciei este blog com um desabafo, expressando meu desencantamento político, mais especificamente sobre crise do Senado, agravada com as infelizes declarações do Presidente Lula diferenciando os cidadãos de primeira classe (no caso Sarney e, por extensão, ele próprio) e o resto (nós, o povão, os “zés ninguéns”).

Quatro meses depois, tudo continua como antes. Sarney continua exibindo seu bigodão e cara de paisagem na presidência do Senado; o Agaciel, depois de alguns meses de férias, já está de volta ao “trabalho”; os poucos atos secretos anulados voltaram a valer; a “reestruturação” capenga do Senado encomendada à FGV não deu em nada; a Comissão de “Ética” chapa-branca repleta de suplentes absolveu todo mundo e apenas o jornal Estado de São Paulo foi punido com a censura.

Mais uma vez, Lula, o ilusionista, o mestre da política, elevado por Chaves à categoria de divindade, deu nó em pingo d’água e deixou a já raquítica oposição a ver navios. Assim como no escândalo do Mensalão, que o presidente enterrou com o factóide do pagamento antecipado da dívida do FMI (que na verdade foi uma troca de títulos da dívida externa, com juros de 4%, por títulos da dívida interna, com juros entre 8% e 12%!), agora o “expert” em abafar crises, com know-how testado e aprovado, conseguiu mais uma vez colocar uma cortina de fumaça sobre tudo com a sua carta na manga guardada a sete chaves para a campanha eleitoral: o famoso Pré-sal.

Seu discurso “histórico”, na véspera do 7 de setembro, sob o manto do nacionalismo oportunista, trouxe de brinde mais um factóide: o suposto “pagamento da dívida externa”, que até hoje não foi contestado por ninguém de expressão nacional, nem pela imprensa, nem pela oposição.

E por falar em oposição, cadê a oposição? Lula faz tudo ao contrário do que alardeava quando oposição e o máximo que se ouve é um ou outro pronunciamento, geralmente do DEM, pois a maioria dos tucanos foge de Lula como o diabo foge da cruz. E por que todo este medo? Será que faltam argumentos?

Certamente não, pois tudo no Governo Lula está superestimado, supervalorizado pelo contexto histórico favorável e pela manipulação de dados e, infelizmente, a oposição não tem competência para mostrar isso ao público. Vejam o exemplo da dívida, o Governo FHC teve motivos concretos para aumentar a dívida interna, pois herdou grandes “esqueletos” do passado que vieram à tona com a queda da inflação. Lula não teve motivos para se endividar. Aliás, era para baixar a dívida pela metade com o superávit primário que ficou definido em lei e, no entanto, só a fez aumentar e camuflá-la com o excesso de dólares no mercado. A população não sabe disso. E por que não sabe? Por que a oposição não esclarece. É difícil falar de economia para a população? Então por que não fazer uma cartilha para leigos?

O mínimo que se poderia esperar da oposição era que ironizasse as ações do Governo sempre defendidas pelo PSDB e combatidas pelo PT oposição. Agora tudo se inverteu e a oposição se cala. A internet está repleta de vídeos mostrando as contradições do Lula de antes e de hoje. Em um deles, o presidente chega a chamar de imbecis aqueles que criticam o Bolsa Família (http://www.youtube.com/watch?v=83WUqpvddq8). Logo após aparece o então candidato Lula criticando os mesmos programas do PSDB que ele unificou e mudou de nome, já que seu Fome Zero não saiu do zero. Mas quantas pessoas vêem isso? Cadê a oposição para mostrar isso ao povo?

Até entendo que o PSDB não queira repetir a oposição irresponsável do PT, mas daí baixar a cabeça a tudo que Lula diz e faz é demais. Trata-se de uma questão ética. Se o presidente mudou de opinião sobre várias questões que antes criticava, deve, no mínimo, reconhecer publicamente que estava errado. Enquanto não reconhecer, a oposição tem que martelar a questão.

Lula, ao contrário, não só se apoderou de todos os méritos dos governos anteriores, como ainda tem a cara-de-pau de semear o ódio contra os seus opositores, principalmente nos comícios que já se tornaram rotina, sob a complacência da justiça eleitoral.

Sua tática é clara: quando faltam argumentos, desqualifica-se o adversário. Agora mesmo temos um exemplo disso nas críticas que FHC fez a Lula. A resposta dos governistas, como sempre, foi atribuir tais críticas à inveja do sociólogo ao ex-torneiro mecânico. Pronto. Está resolvida a questão. O mérito das críticas passou para o décimo plano. A questão ficou exatamente como Lula quer, na superficialidade. Na briga do “eles contra nós” Lula triunfa absoluto, pois aposta na ignorância da maioria da população que, além da memória curta, não sabe diferenciar o que é mérito do governante e o que é fruto de um contexto histórico.

A minoria da população que sabe fazer esta diferenciação está isolada na Internet, sendo agora combatida pelo exército de fanáticos recrutado pelo garoto propagandas do PT, Paulo Henrique Amorim, o qual censura os comentários que podem provocar “dúvidas” nos seus comandados. Incrível como tais “jornalistas” abandonaram completamente a compostura jornalística entregando-se de forma tão descarada a uma campanha política ininterrupta. Tudo agora gira em torno das eleições. Em tudo tem conspiração, tudo agora é culpa do “PIG”. Não basta a máquina governamental, que torra bilhões em publicidade e alicia MST, sindicatos e até o “movimento” estudantil, o Governo quer mais. Quer a unanimidade, quer todos os meios de comunicação aos seus pés, dóceis, vangloriando o “grande timoneiro”. Se criticar, é logo tachado de “PIG”, direitista, tucanalha, etc.

Nesta guerra, os assuntos realmente relevantes são ofuscados por questiúnculas. As contas do governo, que deveriam ser acompanhadas de perto por toda sociedade, ficam desfocadas pelas intrigas políticas, pelos cada vez mais comuns casos de corrupção, fatos isolados que logo são esquecidos com o aparecimento dos novos casos.

Enfim, passaram-se quatro meses onde mais uma vez prevaleceu o toma-lá-dá-cá, os conchavos, as bravatas e caras-de-pau. Durante este tempo dediquei uma parte de um tempo do qual não disponho para tentar chamar a reflexão pelo menos uma ínfima parte da população hipnotizada do Brasil.

Muita pretensão minha, sim, pois achei que poderia convencer algumas pessoas a não cometerem os mesmos erros que cometi no passado quando me envolvi cegamente, principalmente nas campanhas presidenciais do PT. Sempre fui idealista e em nome das idéias e das pessoas em quem acreditava já discuti acirradamente com muita gente, desde a adolescência quando acreditava no comunismo, passando pela faculdade, quando tive que atrasar meu curso por me envolver demais com política estudantil, até mais recentemente nas eleições de 2002, quando cheguei a brigar feio com familiares, esposa, cunhada e até com a sogra defendendo então candidato Lula.

Hoje vocês devem imaginar o meu desconforto ao tocar neste assunto com estas pessoas. Pior, algumas dessas pessoas que antes detestavam Lula agora o idolatram, sendo que uma delas já chegou até a se desculpar comigo pelas brigas do passado, admitindo que estava errado sobre o agora “melhor presidente do Brasil”!

Mais desconfortável ainda me sinto quando vejo a indiferença dos jovens de hoje em relação à política (tenho dois adolescentes em casa), principalmente num momento crucial como o que estamos vivendo, quando temos um presidente populista que não mede esforços em acirrar os ânimos da sociedade contra seus poucos opositores, escondendo-se por trás do manto sagrado do nacionalismo e reeditando o velho bordão da ditadura militar que tentava enquadrar os opositores do regime com o famoso “ame-o ou deixe-o”. Vejam que ironia: agora sou tachado de “anti-nacionalista”, partidário do “quanto pior melhor” e até “urubólogo”, justamente pelos petistas mais radicais, aqueles que viviam torcendo para o Brasil quebrar na era FHC para então chegar ao poder.

Tão grave quanto à indiferença é o fanatismo “neo-esquerdista” que agora se apodera dos poucos jovens que se julgam “politizados”. Achando-se os “donos da verdade”, repetem como papagaios todo o “bê-á-bá” do “nunca na história deste país”, sempre endeusando o ídolo Lula e satanizando FHC (e por extensão o Serra). Por aqui, por exemplo, já chegaram vários, sempre com o discursos prontinhos, a maioria tão frágeis que não resistem mais de duas ou três réplicas (podem conferir nos comentários postados em cada um dos posts e verão do que estou falando).

Enfim, vou ficando por aqui neste muro de lamentações. Vou dar uma parada nos posts por três meses para me dedicar a um projeto pessoal. Durante este tempo vou continuar respondendo os comentários e publicando alguma coisa no Twitter. Se meu projeto der realmente certo, volto a me dedicar a este hobby que é repassar um pouco da minha experiência, principalmente aos mais jovens. Caso contrário, deixo aqui a minha pequena contribuição a quem interessar.

Agradeço a todos os amigos que ajudaram a divulgar nosso blog, em especial aos tuiteiros @veluca, @tom_ssa, @carlabeatriz, @drmarcosobreira, @carolzanette, @ alvarodias_ , @SandraMBS, @MarcosPontes, @sukarno_cruz, @ruminamentos, @inconfidente , @sandrasimi @BeteFOMattos e tantos outros amigos que fiz aqui.

Abraço e até logo.

As infelizes declarações do Presidente Lula

lula_defendendo_sarney

Neste post eu havia programado para iniciar uma série de comparações entre os governos do PT e os anteriores. Mas, diante das infelizes declarações do presidente Lula nesta semana, resolvi mudar um pouco o roteiro e repercutir um pouco mais estes novos eventos.

Embora as emissoras de TV tenham focado nas gravações que comprovam as ligações de Sarney com o Agaciel Maia (desmentindo-o, já que ele jurou no plenário que não sabia o que eram os “atos secretos” assinados pelo seu apadrinhado Agaciel), as declarações do presidente Lula na posse do novo procurador, Roberto Gurgel, repercutiram muito mais entre os analistas políticos, devido a três grandes absurdos proferidos pelo presidente:

Absurdo 1:
Mesmo depois de toda repercussão negativa de suas declarações em favor de Sarney, diferenciando os cidadãos comuns dos políticos perante a lei, o presidente não só reafirmou as declarações anteriores, como “aconselhou” os procuradores a “ter cuidado com as ‘biografias’ dos investigados”.

Absurdo 2:
O presidente tentou intimidar os procuradores lembrando que existe no Senado um projeto que pode “castrar” poderes do Ministério Público. Lula se refere ao projeto do Dep. Paulo Maluf (já aprovado na Câmara) que impede o MP de investigar casos em que haja “perseguição política”. Como qualquer acusação feita aos políticos são atribuídas à perseguições políticas, na prática, o projeto praticamente impede o MP de investigar as vossas “excelências”.

Absurdo 3:
Esquecendo mais uma vez o seu passado, o presidente voltou a criticar eventuais “pirotecnias” que venham a ocorrer nas investigações do Ministério Público. A observação de Lula endossa as afirmações do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, o qual usou o mesmo termo para criticar a operação da Polícia Federal que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, libertando-o duas vezes em 48 horas, num episódio provocou grande indignação da sociedade por diferenciar ricos e pobres perante à lei.

As declarações do presidente cada vez mais enfáticas em relação ao presidente do Senado José Sarney mostram o quanto ele está inflado por sua popularidade. Certamente ele calcula que tal apoio a Sarney vai lhe custar um ou dois pontos a menos de popularidade, porém nada que atrapalhe seu projeto de eleger sua sucessora em 2010 e voltar em 2014 ainda mais poderoso. O presidente, aliás, já adquiriu “know-how” em colocar panos quentes em escândalos. Desde o episódio do Mensalão, quando demonstrou ficar bastante abatido nos primeiros momentos, o presidente reforçou seus comícios entre as classes menos informadas e nunca mais esboçou um só gesto de remorso ou tristeza diante dos descalabros da política (sobretudo do seu partido e familiares).
Em outras palavras, o presidente está se lixando para a opinião pública, pois sabe que conta com o apoio incondicional dos milhões de assistidos pelo Bolsa Família, dos movimentos sociais que recebem recursos do governo, como o MST e o MSLT, além de setores corporativos do serviço público (que ganharam expressivos aumentos nos últimos meses) e até entre uma parcela dos estudantes representados pela UNE, que também recebem recursos do Governo Federal.

Outra aposta do presidente é jogar uma cortina de fumaça sobre os escândalos, polarizando cada vez mais a disputa eleitoral, a exemplo de seu amigo Hugo Chaves, que quase levou a Venezuela a uma guerra civil. Atribuindo às denúncias a uma “campanha midiática”contra as chamadas “forças populares”do seu governo, o presidente inflama os ânimos dos seus eleitores que passam a defendê-lo incondicionalmente, mesmo quando pesam contra ele desvios éticos, como os apontados acima.

Alguns tentam justificar as infelizes declarações do presidente com a importância do apoio do PMDB para manter a “governabilidade” e para garantir a eleição de sua sucessora nas próximas eleições. Partindo para o contra-ataque, o bloco governista tenta mostrar casos semelhantes de corrupção no governo FHC, aumentando ainda mais a sensação de corrupção generalizada entre os eleitores um pouco mais informados.

Tal sensação, no entanto, ao invés de provocar uma indignação generalizada, tem provocado também inércia cada vez maior na sociedade, pois a conclusão mais comum disso tudo é a de que “políticos são todos corruptos” e/ou “os partidos são farinha do mesmo saco”. Daí a mais infeliz das conclusões: “corrupto por corrupto, fico com o que rouba mas faz”. A ironia da frase é que ela ficou famosa nas eleições do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, conhecido por suas mil picaretagens. Ou seja, Lula está a cada dia mais parecido com Maluf , deixando o pior legado que poderia deixar para uma nação: a desilusão política, pois a esperança que se tinha de que o PT era um partido ético se desfez.

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Para ver as primeiras declarações do Presidente sobre Sarney, clique aqui.

Para ver a matéria do Estadão sobre o assunto, clique aqui.

Desabafando

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Decidi criar este blog depois de ver hoje o discurso constrangedor do senador Aluísio Mercadante, fazendo um incrível exercício verborrágico para defender e justificar o injustificável. Ou seja, o apoio do PT a Sarney!

Fiquei surpreso comigo mesmo quando, num aparte do senador Agripino Maia, me peguei torcendo por este senador, fazendo minhas suas palavras, quando tentava enquadrar o agora fantoche Mercadante. E pensar que algum dia eu, que já fui militante do PT, que tinha o Mercadente como um exemplo e que tinha náusea quando via qualquer político do PDS/PFL falar, e agora me flagrar torcendo pelo Agripino. Ufa! Não mudei de lado, mas é que a coisa no PT ficou tão feia que o DEM está parecendo agora até mais palatável. Que tristeza!

O que aconteceu com a ética? A “governabilidade” alegada por Mercadante justifica esta absurda situação de ver agora Lula definir quem preside ou não o Congresso e colocar a ética na lata do lixo de forma tão descarada? Para que serve então o Senado? Para vermos Renan Calheiros reinar absoluto nos bastidores barganhando os votos da grande prostituta da política brasileira (o PMDB) com cargos e mais cargos no governo? Para ver a triste figura do ex-presidente Collor voltar à cena política, agora como capacho de Renan? E o que dizer da farra do Agaciel, colocado no Senado pelo então presidente Sarney, que agora jura de pés juntos que não tem nada a ver com a crise do senado? E o nosso presidente, agora usando seu “know-how” em abafar escândalos para blindar Sarney com sua popularidade de 80%, colocando-o literalmente acima da lei? (Certamente porque também se acha acima da lei). E a chamada “bancada ética”, também incluída na lista dos beneficiados dos atos secretos do Agaciel?

No meio desse terremoto, a oposição segue perdida como cego em tiroteio, sem poder falar muito alto, uma vez que o DEM presidiu a mesa diretora e, certamente, sabia tudo que acontecia.

A coisa chegou a tal ponto que os senadores (e deputados, por extensão) nem mais se preocupam em esconder as trocas de cargos por votos. Ou seja, a natureza do que está sendo votado passou para segundo plano. O governo decide o que deve ser votado e a bancada de apoio vota em bloco, pois os votos são previamente “negociados”.

Se o Senado, e por extensão o Congresso, serve apenas para barganhar cargos no governo e nas estatais, então não tem razão para existir. Aliás, seria uma grande economia para o Brasil extingui-lo, pois assim economizaríamos mais R$ 3 bilhões por ano.