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Os desafios do pós-Lula (macroeconomia)

outubro 10, 2010


Uma das afirmações recorrente nos vários comícios de Lula, mesmo antes da campanha eleitoral, diz o seguinte: “O melhor disso tudo é que o próximo governo terá que fazer mais do que fizemos, caso contrário o povo não vai aceitar”.

Lula estava muito ciente do que estava falando. O próximo presidente vai ter que trabalhar muito não apenas para dar conta de toda expectativa criada para o futuro do país pelo atual governo, como também para por em prática os vários projetos lançados (e já capitalizados politicamente por Lula), para efetuar pelo menos uma das cinco reformas essenciais pendentes e ainda resolver problemas macroeconômicos que começam a dar os primeiros sinais.

Neste post, vamos falar dos principais desafios macroeconômicos do Brasil para os próximos anos. No segundo, falaremos dos principais desafios de investimento e infra-estrutura. No terceiro e último, falaremos dos prós e contras de cada um dos candidatos a presidente sobre cada um dos desafios aqui citados.

A valorização do Real

Não é o maior, mas é, sem dúvida, o problema mais urgente, pois poderá levar muitas empresas brasileiras à falência, caso o dólar continue a cair. O governo Lula tem emitido bilhões e bilhões em títulos da dívida interna a juros de 10,75% ao ano para comprar dólares e assim forçar a valorização da moeda norte-americana. A tentativa funciona num primeiro momento, mas logo exige mais e mais bilhões e assim a dívida interna vai aumentando cada vez mais, assim como as reservas cambiais. O problema é que ambos (dívida e reservas) têm um custo para manter, comprometendo ainda mais o já apertado orçamento e todos os demais indicadores econômicos.

O défict nas contas externas

O ano ainda nem terminou e o Brasil já contabiliza um deficit nas transações com o exterior recorde. Em valores nominais alcançou o maior patamar na comparação do PIB desde o final do governo FHC. O BC espera fechar o ano com um deficit de 2,49% do PIB, o que equivale a US$ 49 bilhões (de Dólares). Para 2011, a previsão é de que o déficit chegue a US$ 60 bilhões (2,78% do PIB).

Os sinais desta tendência já vêm sendo sentidos há algum tempo. O próprio Ciro Gomes, hoje coordenador da campanha da Dilma, previu, quando tentava viabilizar sua candidatura a presidência, uma crise em 2012 decorrente do aumento gradativo deste déficit. Infelizmente, a previsão parece que se confirma a cada dia, como mostra o noticiário.

O aumento da dívida pública

A enorme quantidade de dólares que aportaram no Brasil nos últimos anos (combinado com as maquiagens contábeis do governo Lula) têm passado a falsa impressão de que o problema da dívida está controlado. Isto acontece porque os dólares abundantes turbinam nossas reservas cambiais e estas, por sua vez, puxam a dívida externa para baixo (para pouco mais de R$ 100 bilhões) o que torna seu impacto na dívida pública final (soma da dívida interna e externa) inexpressivo.

No entanto, este cálculo esconde o real tamanho da dívida externa, que atingiu em agosto o recorde de US$ 309,510 bilhões, dos quais US$ 80,916 bilhões são de empréstimos intercompanhias das multinacionais a suas subsidiárias no país. Confira aqui)

Com a dívida interna acontece um outro tipo de maquiagem. O governo vende títulos ao mercado a juros de 10,75% ao ano, empresta a 5% a empresas para pagarem a prazos a perder de vista e não contabiliza tais valores na dívida, pois considera certo o retorno dos empréstimos aos cofres públicos. Na linguagem contábil a coisa é muito simples: um crédito (o pagamento futuro) anula um débito (empréstimo presente). O problema é que os créditos são incertos e os débitos (e os juros) imediatos.

O fato é que se a dívida interna atual continuasse sendo contabilizada com a mesma metodologia da era FHC, a dívida interna em agosto de 2010 já teria ultrapassado a casa de R$ 2,3 trilhão. Se duvidar, consulte a planilha “Divggp.xls” diretamente no site do BC: http://www.bcb.gov.br/?DIVIDADLSP

A taxa Selic

Este é um dos maiores entraves ao crescimento sustentável da nossa economia. Ela é uma das razões para o aporte em massa de bilhões de dólares que chegam ao Brasil todos os dias (já que os juros estão quase zerados no primeiro mundo). Como resultado, temos a gradativa valorização do Real que, por sua vez, diminui a competitividade da nossa indústria, que por sua vez exporta menos, que por sua vez contribui para o déficit nas contas externas. E como se não bastasse este círculo vicioso, quanto mais alta a taxa Selic, mais altos os gastos do governo com os juros da dívida.

E porque então o Governo não baixa a Selic? Um dos motivos é que a taxa é o principal mecanismo de controle da inflação. O segundo motivo é justamente a necessidade de atrair dólares para financiar a imensa dívida pública. E assim se fecha o ciclo com uma grande contradição, pois se de um lado o Governo vende títulos para comprar dólares e forçar a desvalorização do Real, por outro, estimula a entrada de mais dólares com os juros altos.

Como resultado, continuamos comprometendo hoje cerca de 35% do nosso orçamento apertado com juros e amortizações da dívida, 5% a mais que no ano anterior. Confira aqui o último gráfico divulgado pela Auditoria Cidadã da Dívida sobre os gastos do Governo.

O déficit da Previdência

A cada ano o famoso “rombo” da previdência fica maior. A previsão de déficit para este ano é de R$ 46 bilhões, enquanto que para 2011 o rombo já chegaria à casa dos R$ 60 bilhões. Por mais que tente fugir, o próximo Governo vai ter que retardar a aposentadoria de milhões de brasileiros, como, aliás, já admitiram tanto a Dilma quanto o Serra. O problema é que esta é uma tarefa espinhosa, que certamente vai diminuir a popularidade do novo presidente.

Gastos públicos

Uma das principais críticas dos economistas ao atual governo é o seu apetite em aumentar os gastos correntes da máquina pública. Certamente uma política mais austera atenuaria a necessidade de o Banco Central aumentar juros para conter as pressões inflacionárias, além de melhorar os indicadores da maioria dos itens aqui citados. Como resultado, apesar do bom momento em que passa nossa economia e dos recordes sucessivos da arrecadação, o governo tem usado truques contábeis para fechar as contas a cada ano. No final de setembro, por exemplo, o Governo contabilizou como receita R$ 30 bilhões emitidos em títulos para o BDNES, o que significa mais um acréscimo na dívida pública bruta de R$ 2,3 trilhões (segundo a metodologia antiga) ou nos R$ 1,6 trilhão de dívida líquida, como o Governo prefere divulgar.

Poupança Interna

A experiência dos países desenvolvidos mostra que um dos pré-requisitos para se chegar a um desenvolvimento sustentável é ter uma poupança interna acima de 30% do PIB. O Brasil, portanto, está no meio deste caminho. Com um nível baixo de poupança interna o país fica vulnerável a crises, principalmente quando se criam bolhas com o aporte de moedas estrangeiras, como está acontecendo atualmente. Segundo Martin Wolf, principal colunista de economia do jornal britânico Financial Times, “a experiência longa e dolorosa mostra que quando o fluxo líquido de capital estrangeiro fica acima de, digamos, 5% do PIB (e este é o nosso caso), uma crise financeira é provável. Em vez disso, é necessário depender de níveis mais altos de poupança interna”, afirma.

Portanto, é urgente que o próximo governo aumente gradativamente nosso nível de poupança, diminuindo a carga tributária sobre a renda e tornando investimentos de longo prazo mais atraentes, principalmente fundos de aposentadoria.

Investimentos

O Brasil melhorou neste quesito nos últimos anos, porém os 21% do PIB atuais ainda são insuficientes para garantir um crescimento sustentável. O problema é que a melhoria neste quesito nos dois últimos anos aconteceu com dinheiro que deveria ser canalizado para a poupança interna. A partir da crise de 2008 o Governo acertadamente promoveu o incentivo ao consumo. A população foi às compras, porém o nível de poupança caiu de quase 20% para 14,5% do PIB (hoje está na casa dos 16%). Ou seja, um dos desafios do próximo governo é garantir um equilíbrio entre poupança interna e investimentos, estimulando principalmente os investimentos privados já que o BNDES já está trabalhando no limite do endividamento público.

Reforma Tributária

Esta é aquela que todo mundo fala, mas ninguém consegue por em prática. Claro que nenhum governo vai conseguir alterar o regime tributário brasileiro da noite para o dia. Porém é urgente iniciar um processo gradativo de redução da carga tributária, tornando a arrecadação mais eficiente e mais justa, principalmente agora que a economia brasileira começa a perder competitividade com a valorização do Real. Além de eliminar guerras ficais, impostos em cascata e reduzir a tributação de alimentos, é importante que a tributação incida mais no consumo e menos na renda, pois isto ajudaria a aumentar a poupança interna. Enfim, esta reforma tem que ter como principal meta reduzir a informalidade, o que compensaria as eventuais perdas da redução da carga tributária.

Reforma Trabalhista

Esta está diretamente ligada à reforma tributária. Contratar no Brasil é caro justamente porque incidem na renda do empregado uma tributação de 102,3%, distribuídos em 18 tipos de contribuições. Ou seja, o Governo tem aqui uma fonte de arrecadação fácil, porém muito perniciosa para nossa economia, pois não apenas desestimula novas contratações como também inibe o aumento do nível de poupança interna.

Reservas Cambiais

Ao contrário do que muita gente pensa, as reservas cambiais não são uma “poupança” como o Governo tenta vender a idéia. Se fosse, certamente o Governo usaria pelo menos 1/3 dos atuais cerca de US$ 275 bilhões para quitar uma parte de dívida interna, que é hoje um dos principais entraves para o nosso crescimento sustentável.

Elas são o resultado das transações de bens e serviços realizadas pelos brasileiros com o exterior, assim como o fluxo de capitais entre o país e o exterior (empréstimos, financiamentos, aplicações, investimentos diretos, etc), além do acúmulo de dólares comprados pelo BC, operação esta cada vez mais freqüente uma vez que o excesso de dólar no mercado valoriza o Real e dificulta nossas exportações.

O problema é que existe um custo para manter as reservas (hoje estimado pelo Bradesco em US$ 27 bilhões anuais) e o Brasil já ultrapassou em quase 1/3 o valor considerado ideal pelos especialistas. Ou seja, o Governo vai ter que encontrar outras formas de valorizar o dólar, pois o custo das reservas já se tornou um grande problema, tanto que que alguns economistas já começa a chamar nossas reservas de “dívida invisível”.

CONCLUSÃO

Como todos podem ver, há muito por fazer na nossa macroeconomia. A sensação que fica é que o governo atual poderia ter avançado muito mais em todas estas áreas se tivesse um caráter menos imediatista.

A pressa em mostrar resultados de olho no “plebiscito” de 2010 levou o Governo Lula a promover um crescimento artificial, financiado com a emissão de títulos públicos, os quais comprometem o nosso futuro. A aceleração do crescimento veio, porém a dívida pública que hoje deveria estar quase quitada com o pagamento do superávit primário continuou a crescer em uma velocidade superior a era FHC. Se o Governo tivesse diminuído a dívida pública para pelo menos a metade do que temos hoje, certamente todos o indicadores citados acima não teriam tanta gravidade.

Para ver a segunda parte desta série, clique aqui.

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  1. outubro 11, 2010 às 10:44 am

    A taxa Selic esta alta,em comparação com o resto do mundo,mas nunca esteve tão baixa no Brasil.

    • outubro 11, 2010 às 11:34 am

      Olá Ana Paula,

      Pertinente sua observação. Ela ajuda a desfazer as falácias que existem também sobre este assunto. A taxa Selic que já havia chegado ao auge de 45% durante a mudança de regime cambial em 1999 iniciou uma trajetória de queda (com algumas oscilações, claro, pois sofremos os reflexos das turbulências internacionais de 2001) chegando a 18% em meados de 2002. Quando Lula começou a despontar nas pesquisas nas eleições daquele ano esta voltou então a crescer, chegando no auge da “Crise Lula” a quase 27%, taxa esta que o PT desonestamente sempre usa como referência para fazer suas comparações descontextualizadas. Depois da “Carta aos Brasileiros” de Lula se comprometendo a não mexer na política econômica, não só a Selic como todos os outros indicadores voltaram rapidamente aos níveis pré-crise. O problema é que ela permaneceu neste mesmo patamar durante todo o primeiro mandato de Lula (com algumas oscilações também, claro). Só a partir de 2006 quando começaram a aportar no Brasil uma enxurrada de dólares é que a Selic começou a cair lentamente, sendo pressionada ainda mais para baixo com a crise de 2008, quando então chegou a um dígito. O problema é que logo a crise passou e ela voltou a subir, justamente porque o governo não foi capaz nestes oito anos de equacionar o problema da Selic. Desconsiderando portanto a Crise Lula, podemos afirmar que de 2002 até hoje a Selic baixou pouco mais de 7%, muito pouco diante de um cenário tão favorável.

      • outubro 16, 2010 às 7:03 pm

        Não parece ser bem assim.

        • outubro 16, 2010 às 9:02 pm

          Olá Ana,

          Vc poderia dizer do que vc discorda. Assim o debate seria bem mais produtivo.

          De qualquer forma, chamo a atenção para um fenômeno típico da economia que faz com que tudo que tem um viés positivo seja exagerado, da mesma forma que um viés negativo pode desencadear uma crise. Por enquanto, estamos no momento do ciclo positivo, que poderá ser mais ou menos duradouro, conforme as ações do próximo governo. De certo mesmo é que o capitalismo alterna sempre entre momentos de crise e momentos de crescimento. Vamos torcer para que o momento de crise não venha no momento em que o Brasil vai estar no centro das atenções com a copa e as olimpíadas.

  2. Gustavo V. Jacobina
    outubro 12, 2010 às 2:29 pm

    è um prazer tê-lo de volta caro Amilton, suas conclusões econômicas são fastásticas, espero que tenha se recuperado plenamente, o VISÃO PANORÂMICA é uma luz na escuridão, já o divulguei por todo lugar onde passo na web, estava sentindo sua falta,peço agora ao amigo que dê sua contribuição ao site do Serra no PROPOSTA SERRA, fazendo seus inteligentes comentários. estou lá com uma proposta chamada “o espirita pode se chamar de cristão?”, e não é nenhuma tema religioso como de sopetão se pode imaginar, é apenas uma paródia para que possamos discutir filosoficamente os temas da campanha sem a bisbilhotice dos petralhas. nos procure, dê sua contribuição para acabar com estas mentiras e iniquidades do PT. abraços e saúde irmão.Gustavo.

  3. Yacov
    outubro 13, 2010 às 2:53 pm

    Sinto informar-lhe, mané, mas a ERA LULA está apenas começando. O BRASIL PODE MAIS!!!! E por favor retire meu nome sua lista e não me envie mais suas mensagens cretinos.

    “O BRASIL PARA TODOS não passa na glObo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”

    • outubro 13, 2010 às 5:30 pm

      Yacov,

      Fiquei na dúvida entre publicar ou não seu “comentário”, pois estou pensando em fazer uma limpeza no blog para eliminar justamente comentários como este seu. Resolvi publicá-lo então temporariamente, pois ele mostra quem é o verdadeiro “Mané-cretino” aqui.

      Abraço e pode ficar tranqüilo. Seu email já foi deletado da minha lista.

  4. outubro 15, 2010 às 11:26 pm

    Prezado Amilton

    Seu blog explica o meu voto na eleição de 31 de outubro próximo em sua essência.

    “Porque políticos são como fraldas. Devem ser trocados frequentemente. Pela mesma razão” (Eça de Queiroz)

    Parabéns pela clareza de seus comentários

    Forte abraço

    Fernando Goldman

  5. Abbud
    outubro 16, 2010 às 10:17 pm

    Amilton mais uma vez parabéns!

    Há alguns meses achava que eu era uma voz sem eco em um país de anestesiados e cegos, percebi então que como um caverna longa e profunda, depois de algum tempo, um eco de esperança retornou através de seu blog e suas excelentes análises!

    Nunca votei no PT para o executivo, exceto na Marta contra o Maluf em segundo turno para prefeito de São Paulo, mas na época do PSDB no poder sempre costumava votar no PT para o Legislativo.

    Cheguei a conclusão, ainda mais depois de seu novo post, que por ironia devemos salvar o PT!

    Deixar o PT continuar no poder será decretar o fim do próprio partido, que hoje é menor do que LULA e não terá competência nen humildade de desarmar a bomba que eles mesmos armaram!

    O PT para o bem do país deve continuar existindo como o que eles sabem fazer de melhor, que é voltar a ser oposição, fazendo com que partidos mais competentes, modernos e comprometidos com a nação, sejam forçados a andar na linha!

    Um forte abraço e vamos em frente!

    • outubro 16, 2010 às 10:26 pm

      Obrigado Abbud, é sempre bom tê-lo por aqui.

  6. Thomas
    outubro 18, 2010 às 4:47 pm

    Amilton, primeiro de tudo, obrigado pelo seu trabalho. Acabei (até que enfim!) de ler todo o conteúdo deste site. Demorou mas valeu a pena, sinto que em termos de economia estou mais bem informado. Pelo que lembro, no que diz respeito à dívida, você ainda se questionava sobre os títulos em poder do Banco Central. Eu também estava tentando entender o porquê destes títulos, já que se fosse como o seu amigo economista explicou (ativo no BC e passivo no Tesouro), pareceria que não tem pra quê o Banco Central comprar os títulos. Fiz umas pesquisas e caí no seguinte artigo: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=593 Depois de ler isto, acho que começo a entender porque o Banco Central compra estes títulos e o impacto que isto pode ter. Dê uma olhada, talvez seja de seu interesse.

    • outubro 18, 2010 às 10:50 pm

      Olá Thomas,

      É com tristeza que vejo minhas suspeitas confirmadas. Fiquei impressionado não só com o artigo que vc me indicou, como também com um outro artigo canadense postado em um dos comentários. O mais impressionante de tudo isso é que a falcatrua oficial para criar moeda do nada virou uma prática corriqueira ao redor do mundo. Ou seja, pelo andar da carruagem vamos ter que passar por uma outra crise global para então a sociedade despertar para mais este “imposto” indireto via BC.

      Agora o que mais me impressiona é que contabilidade da dívida foi mudada, temos hoje R$ 669 bilhões em poder do BC fora da contabilidade da dívida e ninguém da oposição desperta para este fato.

      Depois que concluir a série atual vou escrever um artigo específico sobre este assunto.

      Muito obrigado por sua contribuição, Thomas. Agora sim temos a solução para o quebra-cabeças dos títulos em poder do BC.

  7. Thomas
    outubro 19, 2010 às 9:40 am

    De fato, a imprensa deveria questionar este $669 bilhões. Não contabilizar ele como parte da dívida parece fazer sentido pelas explicações dadas pelo artigo (e pelo seu amigo economista), a questão é que você apenas muda a natureza do problema. Se continuarem com isso, temos que ficar de olho na inflação porque se ficar criando dinheiro do nada assim, não vai dar muito certo. Espero que um cenário econômico favorável permita sustentar tudo isso por um tempo até que se adote uma política fiscal mais sustentável.

    Tendo lido tudo isso, confesso que não fico mais tanto com o sentimento que o governo procurou maquiar as contas, já que pelo que os artigos explicam parece que a prática é relativamente comum. Podemos questionar a inteligência da decisão, mas pelo menos não sinto que foi mais uma tentativa descarada de enganação, coisa que me deixaria mais preocupado ainda. Resta analisar quanto tempo poderão continuar fazendo isso sem efeitos negativos. Talvez um bom assunto para um próximo artigo? 😉

    • outubro 19, 2010 às 9:54 am

      Olá Thomas,

      O fato de outros países utilizarem esta prática também não a tornam justificável, até porque, como o outro artigo do canadense afirma, em algum momento este montante que vai sendo acumulado no BC vai vir à tona. Das duas uma: ou o Governo zera estes títulos (ou pelo menos pára de emitir novos títulos para o BC) ou fatalmente vamos caminhar para um grave crise. Além do mais, vale lembrar que o nome dado a esta operação pelo PHD norte-americano é “falsificação” mesmo. E em economia tudo tem consequencias. Pode demorar, mas um dia a casa cai. E quando cair, como ocorreu agora nos EUA, todos ficam se perguntado: como ninguém percebeu o artificialismo destas operações antes?

      Isto também explica o porquê da nossa taxa de juros continuar sendo uma das mais altas do mundo, mesmo com o nosso melhor momento na economia nas últimas quatro décadas. O fato é que o governo, mesmo com os sucessivos recordes de arrecadação (e com um crescimento da população bem inferior), continua fabricando dinheiro do nada para fechar as contas via BC, um problema que julgávamos ter sido sepultado com o controle da inflação. Aliás, isto também explica porque a inflação nunca é zerada. O problema parece ter mesmo uma causa sistêmica. Pode parecer pouco uma inflação de 4 ou 5% anual. No entanto, quando contabilizamos estes valores ao longo dos anos percebemos então o quanto a população tem sido extorquida por mais este mecanismo contábil.

      Por enquanto, os reflexos são sentidos apenas no bolso do contribuinte que tem seu poder aquisitivo ano a ano com a inflação residual decorrente destas operações. Porém devemos ficar atentos a evolução deste total de títulos em poder do BC, pois agora sabendo que ele é resultante de uma complicada operação para criar dinheiro do nada, ele então passa a ser também um indicador importante pois quanto maior mais vulnerável estaremos em uma eventual crise decorrente destas operações. Quando escrevi o artigo, há um ano atrás, os títulos em poder do BC somavam R$ 492 bilhões e hoje já estão em R$ 669 bilhões e certamente vão passar a casa dos R$ 700 bilhões ao final do governo Lula, pois este último dado é de agosto!

      Mais uma vez obrigado pela contribuição. Vai ser difícil, mas vou tentar explicar esta complicada operação aos leitores num post específico.

      • Thomas
        outubro 19, 2010 às 12:44 pm

        Amilton, concordo que a prática não se justifica pelo fato de ser praticada por outros. Apenas usava isso pra apontar que se ela é tão comum, é pouco provável que foi usada como método para disfarçar ou esconder algo de má fé, já que seria de se esperar que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento em economia notaria. Portanto, não acho que dá pra argumentar com grande convicção que isto foi uma manobra pra enganar, mas com certeza é um método altamente questionável na sua eficácia a longo prazo. Vamos ficar de olho.

        • outubro 19, 2010 às 10:14 pm

          Thomas,

          De fato não seria nada fácil esconder mais de R$ 600 bilhões. De qualquer forma vale atentar para as alterações que foram feitas na contabilidade da dívida no Governo Lula. Na época de FHC os títulos em poder do BC eram contabilizados como dívida. No governo Lula tais títulos vão reduzindo gradativamente até serem zerados em 2006. Porém, no ano seguinte, já na nova metodologia de contabilidade da dívida, aparecem de supetão quase R$ 300 bilhões em poder do BC (agora fora do total da dívida) e daí então só cresce até chegar os atuais R$ 669 bilhões. No mínimo, muito estranha esta operação. Para mim, pelo menos, está claro que é mais uma forma de aumentar as receitas do governo. Onde isso vai dar veremos no futuro.

  8. Sandro
    outubro 20, 2010 às 3:58 pm

    Simplesmente fantásticas essas duas colocação do Abbud:

    “Deixar o PT continuar no poder será decretar o fim do próprio partido, que hoje é menor do que LULA e não terá competência nem humildade de desarmar a bomba que eles mesmos armaram!”

    “O PT para o bem do país deve continuar existindo como o que eles sabem fazer de melhor, que é voltar a ser oposição, fazendo com que partidos mais competentes, modernos e comprometidos com a nação, sejam forçados a andar na linha!”

    Abs

  9. Garota
    outubro 24, 2010 às 8:27 pm

    E com certeza, um tucano no poder não resolverá estes problemas que você enumerou, ou você acha que vai resolver?

    Ou você acha que algum tucano se preocupou em resolver o problema da fome e da miséria no Brasil?

    • outubro 25, 2010 às 9:00 am

      Garota,

      A resposta para a sua pergunta encontra-se na conclusão do terceiro post desta série. Abraço.

  10. rubens
    outubro 26, 2010 às 9:21 am

    Muito interessante o seu trabalho, também analisei os dados macroeconomicos ultimamente e os índicios de uma grave crise parecem bem claros.
    No entanto, os defensores do atual governo alardeiam as melhorias obtidas na qualidade de vida dos brasileiros, como a renda dos mais pobres, acesso a educação etc. Acho que estes dados são questionáveis levando em conta a carestia da cesta básica da alimentação, por exemplo.
    Estamos vivendo um mito da revolução petista. Espero que não as custas de uma fragilização da democracia e de um caminho sustentável para a economia.
    Saudações

  1. outubro 17, 2010 às 1:16 am
  2. outubro 17, 2010 às 9:43 pm
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