Início > Dívida Pública > Lula e a dívida pública (PARTE 2)

Lula e a dívida pública (PARTE 2)

setembro 5, 2009

O novo credor internacional

charge_divida_externa

Logo após o “pagamento” da dívida com o FMI o Governo Lula anunciou um novo fato histórico: o Brasil tinha reservas superiores à dívida externa, tornado-se um novo credor internacional. A notícia divulgada de forma sensacionalista por alguns meios de comunicação ganhou ainda mais força na Internet. Os defensores incondicionais de Lula invadiram as seções de comentários dos grandes portais e blogs exaltando o governo que tinha “liquidado a dívida externa”. Nos eternos comícios de Lula o já famoso “nunca na história deste país” era usado e abusado para alfinetar a oposição que nada havia feito em oito anos de governo, a não ser endividar o país.

Abaixo um dos gráficos publicados nos jornais “com dados do Banco Central”, que “provavam” que a dívida externa havia sido paga.

bc_mentira_divida_externa

Fonte: Gazeta do Povo

O outro lado da história

Como no episódio da quitação da dívida com o FMI (assunto do primeiro post desta série), a visão geral do processo só vem com o tempo e aí então percebemos que a “boa notícia” era, na verdade, mais um factóide de cunho eleitoreiro. Da mesma forma que o Governo trocou uma dívida barata como a do FMI, com juros de 4% ao ano, por outras com juros bem maiores (entre 8 e 12.75%), no suposto “pagamento” da dívida externa ocorreu algo parecido.

Primeiro é preciso deixar bem claro que a dívida externa continua intacta. Não só não foi paga, como ficou ainda maior mesmo depois do pagamento antecipado da pequena parte da dívida do FMI de 15,5 bilhões, conforme mostra o gráfico abaixo.

evolucao_divida-externa

Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida

Como todos podem ver, os dois gráficos apresentados acima são contraditórios. O primeiro trata-se de uma manipulação de dados, supondo que a dívida teria sido paga com as reservas internacionais, o que não ocorreu (nem poderia, conforme veremos em um post específico sobre as reservas).

Hoje a divida externa cresce em um ritmo inferior ao da dívida interna porque perdeu atrativo já que os “investidores” mudaram o foco para os títulos da dívida interna brasileira, cujos juros são bem mais expressivos (além de contar com incentivos do Governo como a isenção de impostos, por exemplo). Como resultado deste processo, a dívida interna subiu de R$ 623 bilhões no final do governo FHC para R$ 1,4 trilhão em agosto de 2009 (R$ 1,9 trilhão quando considerados os títulos em poder do BC e as dívidas das estatais).

Obs.: um ano depois da publicação deste post, a dívida interna (segundo a nova metodologia adotada a partir de 2007) pulou de R$ 1.400 trilhão para R$ 1.524 trilhão, enquanto que a dívida bruta, contabilizada com a metodologia anterior (a mesma de FHC) já ultrapassaria a casa dos R$ 2,3 trilhão!

Um péssimo negócio

Para quem não sabe, as definições clássicas das dívidas externa e interna diziam que a primeira era cobrada em Dólares por credores estrangeiros, enquanto que a segunda era cobrada em Reais por credores nacionais. Isto foi verdade em algum momento da nossa história. Hoje, no entanto, a “sofisticação” do mercado financeiro tornou as dívidas muito parecidas, de forma que agora existem credores estrangeiros da dívida interna e títulos da dívida externa sendo vendidos em Reais.

Em outras palavras, o que houve de fato foi uma migração do capital especulativo da dívida externa para a dívida interna, só que com um custo bem mais alto para o Brasil. Um pequeno exemplo citado pela Auditoria Cidadã da Dívida Externa ilustra bem a afirmação:

“Em 2007, o Real se valorizou 20% frente ao dólar. Portanto, o investidor estrangeiro que no início de 2007 trouxe dólares para aplicar na dívida interna brasileira ganhou, durante o ano, 13% em média de juros, e mais 20% quando converteu seus ganhos em dólar. Portanto, em 2007, os estrangeiros ganharam uma taxa real de juros (em dólar) de mais de 30% ao ano!”

Para agravar ainda mais o quadro caótico da evasão de divisas, é preciso deixar bem claro que parte das reservas cambiais brasileiras em dólares é aplicada em títulos do governo americano que paga juros cada vez menores. Com a queda do valor do Dólar em todo mundo, na prática, os juros dos títulos da dívida americana tornaram-se negativos para o Brasil. Em outras palavras, o Brasil paga para emprestar dinheiro aos EUA, mesmo com 30% do que o Governo brasileiro arrecada comprometido com juros e amortizações da dívida. Dá prejuízo, mas na ótica do presidente Lula é “chique” emprestar dinheiro. Talvez aí esteja a explicação por Lula ter sido apontado por Obama como “o cara”. Afinal, quem em sã consciência emprestaria dinheiro com tão expressiva parte de suas receitas comprometidas com dívidas?

Os “méritos” do Governo no acúmulo de reservas cambiais

Depois da sequencia de crises internacionais que comprometeram o segundo governo FHC e da “Crise Lula” que fez o Dólar bater a casa dos US$ 4 às vésperas da eleição de 2002, a economia brasileira pôde finalmente gozar de um longo período de estabilidade e crescimento contínuo da economia mundial a partir de 2003. Em cinco anos as reservas cambiais brasileiras (saldo de Dólares que entram no país) pularam de US$ 30 bilhões, no final do Governo FHC, para 178 bilhões em 2007 chegando ao recorde de 235 bilhões no final de 2009.

Estes números, no entanto, inflacionam os méritos do Governo, uma vez que sua contribuição para este crescimento é mais maléfica do que benéfica. Vejamos:

O gráfico abaixo, publicado pela Auditoria Cidadã da Dívida, mostra o fluxo de dólares que entraram no país, responsável pelo acúmulo recorde de reservas cambiais das quais tanto se orgulha o Governo Lula.

fluxo_de_dolares

Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida

O gráfico nos mostra que tanto o saldo comercial quanto a valorização da bolsa de valores são méritos exclusivos do setor privado. Ao Governo coube o imenso fluxo de empréstimos de dólares com a venda de títulos da dívida pública brasileira. Como resultado deste processo, a dívida externa que tinha baixado para menos de U$ 200 bilhões com o pagamento “antecipado” da dívida do FMI aumentou para US$ 243 bilhões já em 2007, enquanto que a dívida interna aumentou 40%, chegando a R$ 1,38 trilhões na mesma época. (R$ 1,524 trilhão em agosto de 2010)

Explicando a “mágica” das reservas cambiais recorde:

  • US$ 40 bilhões entraram no Brasil como resultado do saldo positivo da balança comercial (diferença entre exportações e importações) impulsionado pela valorização no mercado internacional dos principais produtos de exportação do Brasil (comodities).
  • US$ 28 bilhões entraram no Brasil em investimentos na Bolsa de Valores, impulsionados principalmente pela valorização das ações de grandes empresas nacionais que se fundiram e ganharam mercado internacional, além das mega empresas Vale (que chegou ao posto de 2º maior mineradora do mundo) e Petrobrás que teve suas ações ainda mais valorizadas com a descoberta do Pré-sal e a alta do preço do barril de petróleo.
  • US$ 80 bilhões entraram no Brasil através da compra de títulos das dívidas interna e externa (leia-se empréstimos do Governo ao mercado financeiro).

Somando-se, portanto, o total de US$ 148 bilhões resultante da soma dos três fatores acima citados com os US$ 30 bilhões de reservas deixados pelo Governo FHC chegamos aos comemorados US$ 178 bilhões de reservas em dezembro de 2007, um dos maiores “trunfos” do Governo Lula, um dos maiores “diferenciais” em relação ao seu antecessor FHC.

Bom, se o governo já tinha o dinheiro para pagar a dívida externa, faltava apenas tirar o dinheiro da “poupança” e repassar aos gringos. Até hoje, no entanto, isso não foi feito e nem será nem neste nem no próximo Governo. Sobre este assunto, vamos falar um pouco mais no próximo fim de semana.
————————————————————
Fontes:

————————————————————

Para ver o primeiro artigo desta série, clique aqui.

Para ver o terceiro artigo desta série, clique aqui.

Para ver o quarto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o quinto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o sexto artigo desta série, clique aqui.

Para ver o sétimo artigo desta série, clique aqui.

Para ver o oitavo artigo desta série, clique aqui.

Para ver o nono artigo desta série, clique aqui.

Para ver o décimo artigo desta série, clique aqui.

Anúncios
  1. setembro 5, 2009 às 11:16 am

    Força gente que ainda vê e ainda não se alienou a essa gente traidora
    que mente e rouba unicamente

    • Ana
      janeiro 29, 2010 às 3:47 pm

      Eu gostaria de saber de onde essas informaçõe estão sendo tiradas. Quem organizou essa pesquisa? Jornal? Revista? Quem é o autor?

      • janeiro 29, 2010 às 5:54 pm

        Olá Ana,

        Os artigos são todos meus. Os dois primeiros artigos da série sobre a dívida são baseados em relatórios da Auditoria Cidadã da Dívida, uma ONG que desde o início da década acompanha os números da dívida. Os demais cito vários links de jornais e outros sites, além dos sites oficiais do Governo.

        Abraço,

    • outubro 16, 2010 às 7:33 am

      Parei de ler o texto no comentário sobre a “mídia sensacionalista”. Como se a reportagem “Lula e a dívida pública”, com números talvez impossíveis até para a maior economia do mundo, fosse fruto de jornalismo sério. Como assim… “O governo pagou a dívida mas ela continua”? hahaha

      Não precisa ser muito inteligente para notar a “veracidade” do que foi assinalado pelo autor da matéria (Amilton?). Aliás, fontes para quê?

      É, atire a primeira pedra quem nunca… Endividou-se.

      • outubro 16, 2010 às 8:57 am

        Mozer,

        Primeiro vc fala que parou de ler a série sobre a mídia, mas não diz o porquê. Depois começa a ler a série sobre a dívida e pára, questionando os números (apesar das fontes estarem lá, inclusive com as fontes oficiais, como o BC, Tesouro, IPEA, etc.). E por fim, tenta justificar o endividamento que criticamos com a frase: “É, atire a primeira pedra quem nunca… Endividou-se”. Vc realmente entendeu alguma coisa do que leu?

  2. setembro 5, 2009 às 11:26 am

    Parece que a grande especialidade do atual governo, amparado na grande especialidade do seu partido (PT), é a enganação!!!
    Enganam o povo e se aproveitam disso para se beneficiarem da ingenuidade e falta de educação desse povo.

  3. setembro 7, 2009 às 8:43 am

    Este artigo foi escrito antes do pronunciamento do presidente neste domingo, 06/09. Até então o Governo apenas vendia a ilusão de que tinha pago a dívida externa. Desta vez Lula foi além. “Nunca na história deste país” um presidente teve tanta cara-de-pau de ir a TV, em um pronunciamento oficial, e mentir tão descaradamente. Lula falou com todas as letras que “pagou” a dívida externa! Qualquer idiota com um mínimo de conhecimento de economia sabe que não só a dívida externa não foi paga, como o Governo Lula fez a festa com a emissão de títulos da dívida interna, aumentando em mais de duas vezes (daí tantos “investimentos”). A conta, claro, vai para o futuro. Pobre povo brasileiro, massa de manobra de um presidente populista que não pensa em outra coisa a não ser se perpetuar no poder.

  4. setembro 7, 2009 às 12:16 pm

    Quem nunca parou para se aprofundar em economia, me incluso neste grupo, sofre um bombardeio de informações que, no mínimo, devem ser avaliadas com mais critério. Quem tem um pouco mais de educação, fica com a pulga atrás da orelha com tanto sucesso rodeado de um país rico com tanto pobreza, mas quem não teve acesso a educação, acha que tudo isso é bom.
    Tenho medo do nosso futuro.

  5. O editor
    setembro 10, 2009 às 4:55 pm

    Concordo com você Amiltom, o governo fez apenas pagar o FMI para poder usar isso como marketing mas a divida continua sem ser paga e as reservas são usadas para dar estabilidade e credibilidade para o mercado externo basta que pensemos em termos empresarias se tenho 0,205 e devo 1,5 emtão estou a descoberto 1,295 e pago juros pelo que devo, so resta saber aonde essa conta fecha.

  6. Samantha
    setembro 14, 2009 às 7:50 am

    Das duas uma: ou ninguém viu o tal pronciamento ou este país está hipinotizado!!! E ainda dizem que o “PIG” quer derrubar Lula! Haja paciência!!!!!!!!!!!!!

  7. Emiliana
    março 24, 2010 às 8:53 pm

    Fico impressionada com a cara de pau do governo, que nos bombardeia com mentiras eleitoreiras que são repetidas até a exaustão. Acredito que essa meia verdade tão repetida tem influenciado muita gente. “A dívida pública foi paga”, infelizmente pessoas bem preparadas, que trabalham ao meu lado (professores, principalmente os de História) tem afirmado isso com muita convicção. Acreditam nessa afirmação e a defendem com uma bandeira vitoriosa do governo. Seria o mesmo que afirmar que muçarela se escreve com ss. Abraços.

  8. Gustavo Vasconcelos Jacobina
    maio 13, 2010 às 3:46 pm

    Emiliana , neste caso não foi “cara de pau” não, foi ignorância mesmo,a mente do Lula não alcança as áreas periféricas do pénsamento 360°, Ele se vangloria quando ocarro anda sem se importar oom que lado o carro está indo , se era preciso o carro ir e para que o carro vai, são eloculpações típicas de pessoas com baixa capacidade de discernimento.e de mente simplória.tipo.todo homem é um ser racional, Eu sou homem, logo, sou um ser racional.é um esquema típico de uma mente simplória.

  1. outubro 10, 2009 às 5:12 am
  2. outubro 17, 2009 às 8:22 am
  3. outubro 24, 2009 às 2:42 pm
  4. outubro 31, 2009 às 8:45 pm
Comentários encerrados.
%d blogueiros gostam disto: