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Lula e a “Mídia Golpista” (PARTE 2)

agosto 15, 2009

bem-me-quer

O processo de “desencantamento” da imprensa com o presidente Lula (descrito na primeira parte deste artigo), pressupõe que no início do governo a mídia ainda não tinha o caráter “golpista” a ela atribuído nos últimos meses. Para embasar esta afirmação, analisei as três primeiras pesquisas científicas que apareceram no Google sobre a cobertura dos principais jornais do país nas eleições de 2002, das quais posto aqui as principais conclusões.

Pesquisa 1 – Katia Saisi *

Citação 1:
“Verifica-se que os percentuais de citações que os jornais fizeram de cada candidato são bastante próximos e não houve diferença maior do que três pontos. No primeiro turno, o destaque é dado para Serra (31,48% na Folha e 31,44% no Estado), seguido por Lula (28,30% na Folha e 30,88% no Estado), Ciro (24,30% e 23,41), Garotinho (15,34% e 14,07%). (…) Já no segundo turno, Lula liderou praticamente com 60% das aparições nos dois jornais, ficando Serra com 40%.”

Citação 2:
“O eleitor escolheu entre os que se enquadravam ao esquema de mercado, sem se ter a chance de questionar as ofertas (…) Discutimos quem era o mais competente para administrar o país sem pôr em risco o sistema.”

Pesquisa 2 – Emerson Urizzi Cervi **

Citação 1:
“A cobertura da mídia impressa da campanha presidencial ficou próxima do formato de cobertura dos meios eletrônicos: fragmentada e pouco preocupada com temas substantivos”.

Citação 2:
“Os dados também permitem afirmar que Lula não pode ser considerado perseguido pela imprensa, posição que muitas vezes o próprio candidato e seu partido costumam defender. Lula recebeu o volume de cobertura proporcional à média da intenção de votos no período. O maior índice de aparições de Serra, por si só, não foi suficiente para reduzir a cobertura feita pela imprensa da candidatura de Lula. A diferença das valências negativas em relação às valências positivas do candidato do PT ficou próxima das observadas no caso de José Serra”.

Pesquisa 3 – Alessandra Aldé ***

Citação 1:
“O Estado de São Paulo foi o jornal mais parcial analisado. Na verdade, a condição declarada de apoiar o candidato do governo tornaria, no entender dos editores do próprio diário, a cobertura mais transparente para o leitor”.

Citação 2:
“Na Folha, destacam-se os altos índices de neutralidade (…)  É interessante notar, também, a linha editorial, em que as matérias que têm valência são quase sempre negativas, e para todos os candidatos, ressaltando a vocação crítica que a Folha sempre buscou”.

Citação 3:
“O Globo teve uma cobertura menos regular, vinculada aos fatos de cada quinzena, e portanto, favorecendo ora um, ora outro. Surpreende, por parte de um tradicional bastião governista em processos eleitorais, a benevolência adotada no trato de Lula. O interesse jornalístico e a campanha correta do candidato deram origem a uma cobertura francamente favorável, que reproduziu o favoritismo do candidato petista.”

Citação 4:
“As organizações Globo (…) também tiveram como característica marcante a iniciativa de capitalizar o assunto eleitoral, explorando o potencial interesse pelo tema eleitoral. Os principais candidatos também comparecem a suas primeiras entrevistas exclusivas no Jornal Nacional (…). Assim, o pico de cobertura positiva para todos os candidatos (…) explica-se graças à promoção, pela Rede Globo, de uma série de entrevistas com todos os candidatos”

Conclusões sobre as conclusões das pesquisas

De um modo geral os resultados das pesquisas são complementares. No primeiro turno, a imprensa deu um leve destaque a mais a José Serra, quadro que se inverteu no segundo turno, quando as pesquisas já apontavam uma tendência de vitória para Lula. Ou seja, da mesma forma que os candidatos se moldam aos anseios dos eleitores e do sistema, também é verdade que os meios de comunicação “pendem” para os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas.

Ou seja, ao contrário do que o bloco governista fala hoje sobre a imprensa, o fato é que, quando assumiu, em 2003, Lula gozava de total apoio da sociedade e da imprensa, a qual se desmanchava em elogios pelo enorme feito do ex-metalúrgico que se tornou presidente, orgulho da democracia brasileira no exterior.

A perda do apoio da imprensa (como demonstrado no post anterior) é um processo que vem ocorrendo no dia-a-dia da cobertura jornalística. Ao contrário das massas que se encantam com os discursos inflamados do presidente, os jornalistas percebem em tais falas cada manobra política, sempre com o objetivo de se promover e, ao contrário, diminuir os adversários. Da mesma forma que o presidente discursa para as massas falando mal do senado, por exemplo, ele é capaz de, no mesmo dia, discursar para os senadores os enaltecendo.

Um caso que ilustra bem a decepção dos jornalistas com o presidente é o caso do editor da Carta Capital, revista que é quase uma porta voz do PT. O ítalo-brasileiro Mino Carta, decepcionado com o governo, abandonou seu blog e a redação da revista desde fevereiro de 2009. Em seu último post, no seu blog, o jornalista descreve sua decepção progressiva com os rumos do país que escolheu para viver, bem como com o governo petista que acreditou ser a esperança para o Brasil. (Para ver o post, clique aqui)

Guerra declarada

Uma prática condenável comum entre os advogados quando tentam defender um réu culpado é desqualificar o acusador. E assim fez o governo. Ao desqualificar a imprensa atribuindo-lhe um caráter golpista de direita, o governo repete a retórica de Hugo Chaves, criando um clima de acirramento cada vez maior na sociedade brasileira, incentivando a luta de classes e promovendo o ódio em relação à imprensa.

E aí chegamos ao festival de irracionalidades dos últimos meses. Os blogs a favor e contra o governo contribuem ainda mais com tal processo, pois concentram leitores de opiniões semelhantes. Na quase ausência de argumentos contrários, tais leitores sentem-se cada vez mais convictos de suas posições e dispostos ao enfrentamento.

A tática de contra-informação do governo se reflete tanto na “tropa de choque” do Congresso, quanto nas mídias “alternativas” e jornais populares. Neste contexto, a recém lançada coluna “O presidente responde” tem uma importância fundamental na divulgação da opinião do governo nos jornais regionais de todo o país em contraposição aos jornalões Folha e Estadão.

Nesta guerra, alguns fatos isolados costumam chamar mais atenção do que deveriam (e vice-versa). No meio jornalístico, o temor de ver o Brasil trilhar nos rumos da Venezuela encontram eco na opinião favorável do presidente em impor um controle externo na imprensa, no desejo de controle da Internet, nas censuras via liminar que começam a ocorrer no episódio Sarney, além do boicote à grande imprensa promovido pelos blogueiros governistas.

A questão que fica é: a quem interessa uma imprensa desmoralizada? A resposta é óbvia: a todos os corruptos do país, especialmente os corruptos políticos.

Para ver a primeira parte deste artigo, clique aqui.

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Autores das pesquisas citadas:

* Katia Saisi é  jornalista formada pela PUC/SP, pós-graduada em Comunicação e Marketing, professora da Universidade Anhembi Morumb e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP. Link da pesquisa: http://www.pluricom.com.br/forum/o-discurso-jornalistico-sobre-a-campanha

** Emerson Urizzi Cervi, Jornalista, Doutorando em Ciência Política e pesquisador do Laboratório Doxa de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública. Link da pesquisa: Fonte: http://bocc.ubi.pt/pag/cervi-emerson-imprensa-eleicoes-2002.html#foot21

*** Alessandra Aldé, pesquisadora da UFRJ, graduada em Comunicação Social pela PUC-RJ, mestrado e doutorado em Ciência Política no IUPERJ e professora adjunta da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Link da pesquisa: Fonte: http://doxa.iuperj.br/artigos/Presidenciais2002jornais1.doc

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  1. Acácio
    agosto 15, 2009 às 3:58 pm

    Obrigado por seu comentário.

    Acho seus post também muito interessantes.

    Abraços.

    http://www.anetux.com.br

  2. Manu
    agosto 15, 2009 às 8:30 pm

    Muito bem fundamentado o artigo. Me sinto como os jornalistas: decepcionada com o PT.

  3. direitoesubjetividade
    agosto 17, 2009 às 1:31 pm

    Aquino, vc já percebeu que tenho uma posição sobre mídia e política nacional bem diferente da tua, mas respeito a opinião. No entanto, faço uma ressalva: Mino Carta, de fato, escreveu esse editorial de despedida, mas não passou nem 2 edições fora. Continuou a escrever e há muito tempo tem uma posição crítica sobre o Governo Lula (embora ainda admire muito o presidente). Além disso, essa despedida foi motivada mais pelo debate em torno do Caso Battisti e dos efeitos da Satiagraha do que por uma “decepção” com Lula.
    Fica o registro, aguardo vc no http://www.direitoesubjetividade.wordpress.com

    Saudações fraternas, João

    • agosto 18, 2009 às 10:10 pm

      Caro João, também respeito seu ponto de vista, até porque já o defendi. Quanto ao caso Battisti, este foi apenas a gota d’água. Lógico que uma dissidência importante como a dele deve ter levado muita gente do PT ao Mino, quem sabe até o próprio Lula. O fato é que houve sim uma decepção que ficou muito bem expressa em seu último post no blog que continua abandonado.

      Abraço!

  4. Ana Kordel
    agosto 20, 2009 às 2:21 pm

    Primeiramente Obrigado por seu comentário em meu blog.

    Acredito que grande parte da situação da política no Brasil é culpa dos eleitores, que mesmo vendo que os políticos eleitos estão só fazendo falcatruas continuam votando neles, e sendo comprados por estes mercenários.
    Para mudar esta situação no país é necessário mudar a visão política do público eleitor, mas quando a mídia tenta fazer isto, é censurada como se vivêssemos em tempos de ditadura.
    A política brasileira deveria ser feita as clara, mas esta muito suja para que isto aconteça.
    Acho que a maioria dos políticos tem algum “ato secreto”, por isto que quando estão sendo investigado por eles mesmo, tudo vira Pizza no final..

    Parabéns pelos seus posts!

  5. agosto 20, 2009 às 3:47 pm

    Lula é o que há de mais lamentável na política: só lhe serve a imprensa que lhe é favorável, o resto são golpistas. Um belo discipulo de Chavez.

    Hoje, na folha, um editorial impecável sobre isso:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2008200901.htm

  6. elizabetemattos
    agosto 20, 2009 às 5:56 pm

    Dê uma olhadinha no currículum da Dilma Roussef no link abaixo:

    http://passandoaregua.wordpress.com/2009/08/20/curriculum-da-dilma-roussef/

  7. José Ribeiro
    agosto 21, 2009 às 12:41 am

    Para alguém que afirma não ter convicções político-partidárias inarredáveis, o amigo não acha que está assumindo uma postura antipetista demasiadamente incisiva e até um tanto rancorosa? Afinal, toda a sua ira, supostamente motivada pelo sentimento de indignação ética, deposita-se, nitidamente, sobre os ombros do companheiro Lula – herói de nossa incipiente democracia, excepcional estadista, o melhor presidente de toda a história política da grande nação tupiniquim, um homem que conseguiu promover uma verdadeira revolução sem derramar uma única gota de sangue (e, o que é melhor, com absoluto êxito). Sugiro ao amigo que volte seu olhar crítico, por exemplo, também para o governo tucano paulista com todas as suas falcatruas, envolvendo grandes corporações multinacionais (Alstom, Siemens, etc.) e quase todas, se não todas, as estatais de São Paulo (Eletropaulo, CPTM, Metrô, etc.). Engodos, negociatas e falcatruas que, seguramente, já lesaram o erário em vários bilhões, repito, bilhões de reais. Sim, eu tenho posição. Vivemos numa época de transição ideológica e ebulição filosófica; uma época que exige informação, consciência, esclarecimento e tomada de posição. Um indivíduo não é uma ilha. Estamos, queiramos ou não, conectados. Portanto, precisamos assumir um lado e defendê-lo; defendê-lo ferrenhamente sim, porém com embasamento; evitando o fundamentalismo sectário. E o fundamentalismo sectário pode se apresentar com vários semblantes, de inúmeras formas, inclusive através de atitudes e gestos pseudodespojados e de distanciamento das questões político-partidárias. Tenho um lado e o defendo. Defendo o governo Lula; defendo o PT e a necessidade de governar com eficácia e responsabilidade. Não serei incauto a ponto de execrar uma instituição partidária de relevância histórica (o PT, claro) em decorrência de equívocos (ou supostos equívocos) cometidos por alguns companheiros precipitados. Lula, o Partido dos Trabalhadores e o projeto de reconstrução da nação brasileira – que, diga-se de passagem, está apenas engatinhando – estão num patamar muito acima de todas essas situações.

    • agosto 21, 2009 às 1:35 am

      Amigo Ribeiro, a mesma postura crítica que tenho hoje em relação ao governo Lula é a mesma que tive em relação a outros governos. Quem me conhece de longas datas sabe que fui um ferrenho crítico do FHC e defensor do Lula (isto é, inclusive, motivo de algumas chacotas hoje). Ou seja, se minhas críticas hoje são mais direcionadas ao governo Lula é porque este é o atual governo, é quem deve estar sendo julgado. Não me interessa o governo de São Paulo, não conheço a realidade de São Paulo e até porque tenho plena convicção de que Serra ou Aércio não tem a menor chance nas próximas eleições. Acho até melhor mesmo que a Dilma vença, pois assim ela (e não a oposição) herda as bombas que Lula vai deixar, como, por exemplo, uma dívida interna astronômica de 1,4 trilhão, um défict recorde na Previdência e um aumento escalonado dos servidores públicos até 2014. A “revolução” que vc se refere não é nada além do processo de desenvolvimento proporcionado pela globalização nos últimos anos. Aliás, o Brasil ficou muito aquém do que poderia ter crescido, caso o governo Lula tivesse prosseguido com as sete reformas que prometeu no discurso de posse do primeiro mandato e que até agora não cumpriu nenhuma. Por isso que crescemos menos da metade da média dos demais emergentes. Este governo que vc idolatra paga metade do que arrecada em juros e mesmo assim conseguiu aumentá-la em 45% , mesmo no período áureo do crescimento da economia mundial entre 2003 e meados de 2008. Se o presidente pensasse mais no país e menos nas eleições teria controlado os gastos para iniciar uma trajetória de diminuição da dívida, de queda nos juros e na carga tributária. Se tivesse feito isso, hoje não precisaríamos de PAC para acelerar o crescimento, nem teríamos pago quase um trilhão de juros, nem precisaríamos estar agora ressuscitado a CPMF. Minha diferença em relação a vc é que não me deixo mais seduzir por político nenhum nem pelo fundamentalismo sectário e doutrinário de correntes ideológicas que não passam de cortinas de fumaça para esconder o real objetivo de tais facções: o poder.

  8. agosto 29, 2009 às 12:07 am

    Aquino, parabéns pela sua crônica, temos que formar uma corrente para abrir os olhos da nossa população embriagada com tanto populismo e esmola desse governo medíocre pela sua objetividade.
    Como já disse no meu blog ( O Senado e a Ética )
    É lamentável que nossos jovens estudantes de hoje não se espelhem nos estudantes da minha geração, que não ficavam imunes às atrocidades que a direção política daquela época promovia.
    É lamentável que nossos empresários, da classe média especialmente, não se manifestem, só porque se sentem acuados, de um lado pelo poder econômico (especialmente os banqueiros, abençoados pelo presidente Lula), por outro lado, sem poder de persuasão junto aos pobres coitados da classe baixa e miseráveis deste país (abastecidos e eternamente agradecidos ao Presidente Lula, pela esmola oferecida mensalmente e agora, com os respectivos reajustes, que garantem ao Presidente colocar quem ele quiser no seu lugar).
    Também não deixa de ser lamentável que políticos que, naquela época, desfilavam com atitudes e títulos socialistas, tenham se tornado hoje liberais solidários a essa mancha que permeia nossas instituições.
    Este é o nosso País! esta é a nossa política atual! estes são os brasileiros de hoje! Vivemos uma verdadeira inversão de valores, onde a corrupção, a bandalheira (como se diz na minha terra), são valores assumidos de corpo aberto nas nossas mais valiosas instituições.

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