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Contextualizando o governo Lula

julho 19, 2009

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Nos últimos anos nos acostumamos a ver recordes sucessivos do governo Lula. A descontextualização dos números, no entanto, supervaloriza as conquistas do atual governo e ajudam popularizá-lo, a ponto do presidente não mais se preocupar com eventuais quedas nos índices de aprovação, mesmo depois de suas veementes defesas a José Sarney e Renan Calheiros, dois dos maiores representantes da política coroneslista que controlam o Congresso brasileiro.

Abaixo enumeramos alguns fatores que supervalorizam os números do governo do PT.

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A EVOLUÇÃO NATURAL

Entre os erros mais freqüentes (e mais desonestos) ao se comparar os números entre os governos do PT e do PSDB é ignorar o processo natural de evolução da economia mundial. É algo como comparar um veículo do ano com um veículo de uma década atrás. O veículo novo tem a obrigação de ser melhor, pois muitos dos recursos novos são resultantes do aperfeiçoamento constante da tecnologia, processo este que tem sido acelerado cada vez mais nos últimos anos.

Conclusão 1: o governo Lula tem a obrigação de ter números melhores que os governos anteriores, pois a evolução é uma tendência natural, alimentada pelas experiências e conhecimentos anteriores.

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O CONTEXTO DA ECONOMIA BRASILEIRA

Desde que Collor baixou as alíquotas importação (um dos poucos méritos do seu governo), a economia brasileira iniciou um longo processo de modernização e competitividade, que evoluiu na era FHC e se consolidou no governo Lula. Toda reforma, no entanto, tem efeitos colaterais, os quais podem ser sentidos durante anos. A abertura da economia, por exemplo, provocou déficits na balança comercial e a falência de milhares de empresas em todo o Brasil. As que sobreviveram, no entanto, ganharam mercado internacional e prepararam o país para a era da globalização.

A era FHC é, portanto, uma época de transição, onde diversas reformas tiveram que ser implementadas para criar as condições mínimas para um crescimento sustentável. A principal delas era o controle da inflação, um grave problema que se arrastava há anos e que havia derrotado vários planos econômicos. O Plano Real finalmente diminuiu drasticamente a inflação e abriu caminho para a desindexação da economia, o que permitiu sucessivas quedas nos anos seguintes até chegar aos atuais 4.5% ao ano.

Como todo remédio, os efeitos colaterais do processo de controle da inflação foi a explosão da dívida interna do país, resultante das políticas de controle do câmbio em um ambiente de grande volatilidade decorrente da combinação de sucessivas crises internacionais com a ausência de reservas cambiais, a fuga de capitais especulativos e o repasse das dívidas estaduais e municipais à união. Uma outra conseqüência do controle da inflação foi a crise financeira dos bancos que levou o governo FHC a implantar o impopular PROER, programa que saneou o sistema financeiro nacional e que ajudou a atenuar os efeitos da crise internacional do final de 2008, já no governo Lula.

Outras medidas impopulares implementadas pelo governo FHC foram as privatizações de grandes empresas como a Vale do Rio Doce, CSN e as estatais das telecomunicações. Os cerca de 60 bilhões de dólares arrecadados, no entanto, evaporaram nas amortizações das dívidas com o FMI, dívida externa e interna (e certamente via corrupção). A perda de patrimônio, no entanto, só viria a ser compensada em forma de impostos nos anos seguintes com o crescimento constante das empresas privatizadas. A Embraer, por exemplo, privatizada ainda no governo Itamar Franco, deixou a condição de estatal que quase chegou à falência para se tornar em 2008 na terceira maior fabricante de aviões do mundo, atrás apenas da Boeing e da Airbus. A Vale seguiu o mesmo caminho e se tornou a segunda maior mineradora do mundo, reforçando o caixa do governo e multiplicando por cinco seu quadro de funcionários. A privatização das teles provocou uma verdadeira revolução da telefonia no Brasil, permitindo a entrada no Brasil de cerca de 120 bilhões de dólares em investimento e a criação de empregos, a maior parte já no governo Lula.

Conclusão 2: a era FHC é uma época de transição que exigiu do governo decisões impopulares, porém criaram as condições para o crescimento na era Lula.

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O CONTEXTO DA ECONOMIA MUNDIAL

A década de 90 foi marcada pelo início do processo de globalização. As grandes economias mundiais entraram em um processo de desaceleração de crescimento devido ao excesso de produção em descompasso com o crescimento do seu mercado consumidor.

Os indícios de estagnação das economias dos países desenvolvidos levaram seus governos a procurar novos mercados em países subdesenvolvidos. Se no início os esforços se concentravam na busca de novos compradores, aos poucos as grandes multinacionais, buscando maior competitividade, ampliaram significativamente suas filiais ao redor do mundo, interligando as economias e quebrando as fronteiras entre as nações.

Aos poucos, os novos investimentos das multinacionais foram sendo transferidos para países subdesenvolvidos (entre eles o Brasil), mercados com grande potencial de desenvolvimento, justamente por ter muito o que fazer (muitas áreas a explorar), além de populações mais jovens.

A economia mundial entrava agora em uma nova era caracterizada principalmente pela interdependência entre as economias. Crises em países como a Coréia do Sul, por exemplo, tiveram repercussões negativas na economia mundial. Países subdesenvolvidos como o Brasil sentiram mais fortemente tais reflexos, devido à volatilidade de suas economias, cujos fluxos cambiais eram mantidos artificialmente através da entrada de capitais de curto prazo, atraídos pelas altas taxas de juros.

No caso do Brasil, as fugas dos capitais de risco nos momentos de crise disparavam a cotação do Dólar, forçando o governo a aumentar ainda mais as taxas de juros, o que tinha uma implicação direta no aumento da dívida interna brasileira. Alguns países como a Argentina, por exemplo, não conseguiram sobreviver às instabilidades da época e também sucumbiram, desencadeando novas crises internacionais menores.

Passada a fase de turbulências, já por volta do ano de 2003, a economia mundial inicia uma fase de crescimento acelerado, com foco principal nos agora chamados “países emergentes”, ou seja, as economias que criaram as condições necessárias para iniciar uma fase de crescimento sustentável. Alguns desses países, devido suas grandes populações e extensões territoriais, como o Brasil, China, Índia e Rússia ganharam grande projeção mundial, justamente por seus potenciais de se tornarem no futuro grandes potências econômicas.

A citação freqüente dos quatro países entre os grandes investidores logo levou ao surgimento da sigla BRIC, composta das iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China. A formação deste grupo intermediário no cenário mundial ajudou a quebrar um pouco o monopólio das decisões da economia mundial, antes monopolizado pelo G7.

A fase de rápido crescimento, a partir de 2003, veio a ser interrompida novamente no final de 2008, com a crise financeira originada nos Estados Unidos. Pela sua importância, a crise norte-americana se irradiou pelo mundo. Desta vez, no entanto, o Brasil não sentiu tanto como em outras crises, pois além de ter um sistema bancário saneado na década anterior, pôde contar com o suporte de uma reserva cambial de mais de 200 bilhões de dólares (fruto das sucessivas balanças comerciais positivas) que ajudou a tranqüilizar o mercado no momento mais crítico.

Conclusão 3: A partir dos sinais de estagnação das economias do 1º mundo, o foco dos investimentos das multinacionais foi deslocado para os países em desenvolvimento. Ou seja, o Governo Lula assumiu a presidência em uma época de grandes investimentos.

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A GLOBALIZAÇÃO

Ao contrário do que os partidos de esquerda alardeavam nos anos 90, o processo de globalização tem reduzido a distância entre países ricos e pobres, além de interligar as economias. A evolução tecnológica constante decorrente do aumento de competitividade das grandes multinacionais (que passaram a disputar também os mercados dos países subdesenvolvidos) possibilitou uma drástica redução de preços dos produtos, tornando-os cada vez mais accessíveis às populações de baixa renda.

Conclusão 4: As facilidades atuais das classe mais baixas em comprar bens duráveis muito pouco tem a ver com as atuações dos governos. É uma regulação própria dos mercados impulsionados pela evolução tecnológica e pela competitividade, o que tem provocado uma sensível redução dos preços.

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O CICLO DO DESENVOLVIMENTO

A história da economia mundial é feita de momentos de crescimento e de crises. Após cada crise, no entanto, sempre ocorre momentos de rápido crescimento. A regra também vale para o Brasil. Depois de chegar ao fundo do poço no governo Collor, o Brasil inicia uma fase de recuperação durante a era FHC, a qual foi interrompida sucessivas crises internacionais (e algumas brasileiras). A partir da era Lula, o Brasil pode finalmente gozar do ciclo virtuoso do desenvolvimento.

Conclusão final: Comparar os números dos governos Lula e FHC sem levar em consideração o contexto histórico é algo, no mínimo, parcial (em alguns casos, desonesto). Uma comparação mais justa seria enumerar o que cada um fez de relevante em termos de projetos, seus custos-benefícios, assim como o que deixaram de fazer. Nem Lula nem FHC são santos. Ambos têm acertos e erros, sendo que os escândalos de corrupção nos dois governos os colocam num mesmo patamar. A diferença é que FHC foi punido com a perda de duas eleições e Lula, ao contrário, deve ganhar pelo menos mais duas eleições graças à incapacidade de discernimento da população brasileira que demoniza FHC e santifica Lula, com base numa comparação injusta.

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  1. Não interessa
    agosto 8, 2009 às 8:39 pm

    Vc é mais um demotucano enrustido! Deixa deste discurso em cima do muro e assume de vez!

    • Hugo
      agosto 24, 2009 às 3:12 pm

      Porque toda critica ao Lula é tucanagem?! Não é possível que ninguém veja erro nos dois?! Na minha opinião o Lula é tão ruim quanto o PSDB, tanto que mantem a mesma política.

      • agosto 24, 2009 às 11:05 pm

        Se as minhas críticas atuais são mais direcionadas ao PT é porque este é o partido que está sendo julgado no momento. O PSDB errou muito e foi punido nas urnas, inclusive por mim. No entanto, não me parece que o mesmo vai acontecer com Lula, o qual tem se preocupado mais com as eleições do que governar. Mas o que mais me incomoda neste governo é o cinismo do presidente de capitalizar todos os méritos para si e demonizar os antecessores. O objetivo deste artigo é mostrar como as comparações de Lula são inflacionadas pelo contexto que ele pegou. A malandragem do Lula pode funcionar para o povão, não para mim.

  2. Carla Lins
    agosto 23, 2009 às 2:12 pm

    Parabéns pelo artigo. Sempre vi muita comemoração no governo Lula e pouca ação. Acho que os pontos abordados ajudam a explicar o seu “bom desempenho”, se é que assim pode se classificar este governo.

  3. Reinaldo
    setembro 23, 2009 às 11:48 am

    “Conclusão 2: a era FHC é uma época de transição que exigiu do governo decisões impopulares, porém criaram as condições para o crescimento na era Lula.”

    Você chama de “impopulares” as decisões que tornaram Daniel Dantas um bilionário, que permitiram a Steinbruck e sócios apropriarem-se da Vale e das reservas de quase um trilhão em minérios? Seriam apenas “impopulares” os desmontes da telefonia, ferrovia e centrais elétricas? Concordo com você: O governo FHC foi de transição: transitaram centenas de bilhões de dólares do nosso bolso para os bolsos dos amigos de FHC (entre os quais você parece incluir-se como um dos mais fiéis). Mas, voltemos à Educação: no desgoverno de FHC inventou-se a desgraça da “aprovação automática” e com isso ficou mais fácil levar analfabetos a concluirem o Ensino Fundamental. Foi o fim da repetência (e mais alunos nas salas de aula não significou absolutamente uma melhoria na educação).

    Defender o desgoverno Fernando Henrique é um ótimo exercício retórico (retórica de botequim)!

    • setembro 23, 2009 às 7:42 pm

      Reinaldo, vou desconsiderar seus insultos. Também não vou entrar no mérito se houve ou não corrupção nos processos de privatização. Meu ponto de vista sobre a ética dos governos do PSDB e do PT estão bem claros no quesito “Legado Ético” do post da comparação Lula x FHC. Ou seja, os dois provaram ser farinha do mesmo saco neste importante quesito. Agora quanto a questão da privatização, não inclui este assunto na comparação devido ao fato desta ser uma questão ideológica. Ou seja, pode ser defeito ou mérito, de acordo com as convicções pessoais de cada um. O caso da Vale, por exemplo, de uma estatal estagnada há décadas passou a ser a segunda maior mineradora do mundo, já rumando para o primeiro lugar. Hoje ela canaliza bilhões em impostos e nós, contribuintes, não precisamos ficar preocupados com a corrupção que existe hoje na Petrobrás, por exemplo. Esta, ao contrário, ao invés de trazer dinheiro para o Governo, retira todos os anos bilhões e bilhões. Neste ano foram 65 bilhões e em 2010 serão 80 bilhões que saírão do bolso do contribuinte para uma empresa que tem acionistas privados!!!! Vejam a diferença. A Vale foi a empresa brasileira que mais sofreu com a crise, mas em nenhum momento pediu dinheiro emprestado. A Petrobrás, mesmo depois de lucrar absurdos com o barril de petróleo a 150 dólares, sem baixar um centavo no preço ao consumidor brasileiro, na primeira crise internacional que enfrentou na era Lula foi correndo pedir dinheiro emprestado a Caixa Econômica. Ou seja, de que me adianta dizer que sou dono da Petrobrás se a empresa, ao invés de trazer dividendos, retira recursos do Estado? Vale ainda ressaltar que o “orçamento” da Petrobrás é 1,5 vezes maior que o da saúde que Lula diz não ter dinheiro.

      Com relação à “aprovação automática” ou “progressão continuada”, este é também um tema polêmico que divide especialistas. Pode ser um bom instrumento quando bem utilizado ou pode piorar ainda mais o que já é ruim. De qualquer forma, no quesito educação, dei ponto para o Lula na comparação. Ou seja, sua citação não altera nada na comparação deste quesito.

    • anônimo
      setembro 24, 2009 às 11:28 pm

      nesse comparativo realmente FHC perde, pois nenhum filho dele passou de limpador de jaula de macaco a empresário milionário em poucos meses.
      sem falar no repasse de verbas públicas para faculdades de qualidade duvidosa, esse financiamento de “empresários” do setor de educação universitária chamado Prouni.
      o problema parece ser a perda das boquinhas nas estatais, isso realmente dói fundo nos petralhas.

  4. Livio
    novembro 1, 2009 às 10:47 pm

    Amigo,

    Adorei os seus números, mas faltam alguns para voce poder opinar com isenção sobre a venda da Vale:
    A cotação do minério de ferro, antes da venda da Vale, estava num de seus piores momentos, em torno de 15 dólares por tonelada. Foi então, vendida por 3 bilhões de dólares, sendo que grande parte deste dinheiro era constituída pelo que se chamava “moedas podres”.
    Acontece que pouco tempo depois, a cotação do minério de ferro, por pressão do crescimento da China, começou uma escalada até atingir mais de 70 dólares.
    Argumentar que o crescimento da Vale foi só pela privatização é ignorar dados tão relevantes, que poderiam até ser argumento, por exemplo, para defender a administração de Hugo Chavez, que nada de braçada no grande aumento do preço dos petrodólares, como um grande administrador.

    • novembro 2, 2009 às 8:38 am

      Muito pertinentes suas observações, Livio. Ajudam a colocar os “pingos nos i”s neste tema polêmico que é a privatização. De qualquer forma, independente do preço do minério, o fato da Vale chegar a 2ª posição do ranking mundial já rumando para a primeira é algo bastante significativa que certamente não teria sido possível com as administrações burocráticas, inchadas e corrompidas das estatais. Acho que por serem empresas de setores estratégicos não deveriam ser privatizadas totalmente ou, talvez, devesse existir uma regulamentação que amarrasse o desenvolvimento dessas empresas ao país, alguma coisa parecida como participação nos lucros.

      O caso do Hugo Chaves é mesmo de pasmar. Lá, como aqui, existe uma histeria em torno do “líder” como se ele fosse responsável por tudo de bom que aconteceu com o país nos últimos anos. Esquecem que o preço do Petróleo quando ele assumiu em 1998 custava US$ 17,2400, chegou a US$ 151 em meados de 2008 e hoje está na casa dos US$ 75. Se vc considerar que a indústria do petróleo corresponde a 50% da arrecadação daquele país, dá para imaginar a festa que foi para o Chaves administrar a Venezuela nos últimos anos.

      O Brasil também foi beneficiado tanto com o preço do petróleo quanto com os preços das commodities, principais produtos de exportação brasileiros que custavam em média US$ 104,64 em dezembro de 2003, chegaram a custar US$ em 231,65 e em agosto de 2009 estavam em US$ 173,81 por causa da crise financeira mundial, já em plena recuperação (eis um dos motivos para a saída rápida do Brasil da crise).
      Este cenário explica não só o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos, como também o da Venezuela e, principalmente, de Angola, o país que mais cresce no mundo hoje. Só para dar uma idéia do crescimento deste país africano, em um único ano, em 2007, o país cresceu 36%! Ou seja, mais que os comemorados 27% do Governo Lula em 7 anos.

      Obs.: os dados dos preços citados são do IPEA.

  5. Livio
    novembro 2, 2009 às 6:42 pm

    Esperar isenção de opiniões partidarizadas é quase uma fantasia.

    Esse tipo de análise não é vista nem por analistas economicos, ou colunistas de jornal.

    Infelizmente, tanto opositores quanto aliados, apenas escolhem o lado e torturam os argumentos para poder argumentar. Pior, quando foi que voce viu alguém se render aos fatos?

    Apenas para finalizar – de maneira semelhante à Vale, a Petrobrás singrou nos mares de valorização das commodities. Será que o preço era irreal agora, ou na década de 90? As duas são as principais empresas negociadas no Bovespa, influenciando pesadamente em todas as outras.
    Isentamente, não é possível nem louvar a privatização da Vale, nem defender o controle da Petrobrás simplesmente mostrando a escalada da lucratividade.
    Eu pessoalmente, lamento muito a maneira com que a coisa foi conduzida. Hoje é possível enxergar a ingerência que a Petrobrás foi vítima nos tempos da Petrobrax e da P-36, e dos vazamentos periódicos de oleodutos. Mas na época, era entusiasta ferrenho da privatização.
    Aliás, não só eu, mas até os candidatos tucanos, que sentiram pesadamente o quanto que o brasileiro ainda valoriza o processo de privatização, durante a eleição de 2006.

  6. Livio
    novembro 2, 2009 às 6:58 pm

    Só complementando.

    Mesmo com todos os poréns de administrações de estatais que voce aponta, a Petrobrás também conseguiu avanços inimagináveis neste período, e se a Vale hoje tem papel de destaque, a Petrobrás não fica devendo em nada. Só que, além dos acionistas, ela reviveu uma indústria naval que estava terceirizando grande parte de seus contratos, tem atuado vigorosamente na questão ambiental, e até nas comunidades onde está instalada.
    Eu teço loas às duas, que hoje são as maiores empresas do Brasil. Se uma foi privatizada e a outra não, não foi possível detectar uma diferença tão visível assim, pois ambas se agigantaram e tomaram corpo, e são extremamente profissionais, motivo de sua valorização por investidores brasileiros e estrangeiros.

    • novembro 2, 2009 às 9:43 pm

      Lívio, parabéns pelo equilíbrio dos seus comentários. Concordo com vc em maior e ou menor grau na maioria dos seus argumentos. Faço apenas algumas ressalvas em relação a quatro pontos:
      1) O afundamento da P36 foi uma fatalidade, assim como a série de vazamentos que ocorreram há alguns anos. Naturalmente se hoje não ocorrem mais vazamentos como antes isto tem mais a ver com o natural aprendizado com os erros do passado do que com eventuais “incompetetências” administrativas. Naturalmente se um tipo de tubo, por exemplo, começa a apresentar vários vazamentos, certamente tais tubos serão substituídos por outros mais resistentes. Querer avaliar a eficiência dos administradores comparando o número de vazamentos é ignorar o processo histórico, pelo qual o futuro se beneficia do aprendizado dos erros do passado. E mesmo que algum erro administrativo tenha levado a algum desastre ecológico certamente isto não tem nada a ver com o fato do suposto administrador ser tucano ou petista, pois existem incompetentes em todos os partidos e, principalmente, em cargos políticos, como é o caso de muitos cargos da Petrobrás.
      2) A Petrobrás deu um grande salto quando seu capital foi aberto. Além da injeção de recursos, a entrada de acionistas na empresa deu a ela um caráter privado que até então ela não tinha. Certamente tais acionistas tiveram grande participação nas decisões que tornaram a empresa mais eficiente e segura quanto aos acidentes.
      3) Acredito que, apesar do sucesso de ambas, a Vale foi mais bem sucedida, uma vez que está quase no topo das empresas do setor. Considero o crescimento da Petrobrás menos expressivo, primeiro por sua posição no ranking mundial entre as petrolíferas. Segundo, por esta receber o segundo maior orçamento do Governo (o que por si só já é uma ilegalidade, já que tal injeção de recursos privilegia acionistas privados). Só para dar um exemplo, em 2010 a empresa vai receber R$ 80 bilhões (fora os empréstimos), o que corresponde a US$ 45 bilhões, ou seja, 11% do valor de mercado da empresa. Poucas empresas crescem 10% ao ano. Neste quesito a Vale sobra, pois foi a empresa que mais sofreu com a crise e mesmo assim não só não precisou de socorro do Governo como continuou a investir. Reduziu apenas US$ 4 bilhões dos US$ 14 bilhões inicialmente previstos (apesar das críticas injustas do Governo). A Petrobrás, ao contrário, mesmo sofrendo menos com a crise, mostrou-se vulnerável, a ponto de pedir dinheiro emprestado a Caixa e ao BNDS, mesmo depois de lucrar bastante com a valorização das suas ações com as boas notícias do Pré-sal. Acho que aí fica bem visível a diferença da eficiência entre a administração privada e a administração pública.
      4) Outra coisa que me incomoda na Petrobrás é o seu uso político, tanto como cabide de empregos em troca de favores políticos, quanto pelo financiamento de projetos culturais, uma verdadeira caixa preta que infelizmente não será aberta pela CPI chapa branca.

  7. Livio
    novembro 3, 2009 às 1:23 pm

    Amilton,

    Obrigado pelos elogios, os quais retribuo com todo o mérito.

    1 e 2) Claro que acidentes acontecem, mas o que eu vejo é que se passou de um momento em que a companhia estava com contenção proibitiva de despesas e déficit de pessoal, o que a fez levar mais de 24 horas para reagir à notícia do acidente da plataforma. Aliás, um outro argumento interessante é justamente que, uma companhia dessas pode ser novamente vítima de um corte orçamentário dependente de decisão governamental, caso seja eleito com governante que decida por isto. Isto se viu nitidamente com os dois últimos presidentes.

    3) no primeiro trimestre de 2008, a Petrobrás atingiu o valor de mercado calculado em 295,6 bilhões de dólares, superando a Microsoft, e se tornando a terceira maior companhia das américas, à frente de gigantes como a BP e a Chevron-Texaco, sedo superada apenas pela ExxonMobil e a General Eletric. Com administração pública e com transparência das obrigações e de balanços auditados para seus acionistas.

    4)Sobre o argumento de “cabide de emprego”, tratar um problema de polícia se desfazendo de um patrimônio é pouco sensato. É pesaroso, ou melhor, preocupante, encontrar pessoas inteligentes e bem informadas ponderando em arrancar os dedos junto com os anéis. Me vem à mente a idéia de se tentar matar um rato usando uma espingarda.

    Afinal, não decidimos vender bens preciosos,, veículos ou mesmo empresas quando se encontram ladrões na vizinhança, nem se formos vítimas de furtos ou assaltos por funcionários desonestos.
    Pior, nem se desfazendo disso é possível se livrar de má-gestão, corruptos ou escroques. Vide o caso da Enron (na maior superpotência do planeta).

    Voce já encontrou alguém preocupado, ao invés de apontar o dedo, preparando dossiês sem provas ou montados por políticos, em realmente diagnosticar e tomar medidas para reduzir o excessivo e imoral número de funcionários selecionados por mera indicação política, em diversos “cargos de confiança” pelo executivo e legislativo? Se agride o funcionário público (muitas vezes de carreira e mal remunerado), este ou aquele desafeto, mas jamais o cerne do problema.

    Acontece que o loteamento de cargos faz parte do aliciamento das “bases” pelo poder executivo, seja municipal, estadual ou federal. Se hoje é com o atual, ontem foi com o anterior, e aí começa aquela ladainha que nunca dá em nada, de um lado de ver o atual, e do outro, em abraçar tudo o que o anterior já fez.

    Isto é um problema de POLÍCIA, de Ministério Público, de Tribunais de contas.

    Tratar corrupção como um mero problema moral (o que não deixa, claro, de ser), é reduzir a chance de se encontar tratamentos efetivos contra esta perniciosa moléstia. Para mim, até, é um teatro para que as coisas continuem sendo as mesmas. No final, ainda que fossem utópicamente punidos, as oportunidades, inalteradas, estariam por lá, esperando o próximo vigarista.

    • novembro 3, 2009 às 10:51 pm

      Lívio, considero suas ponderações, mas discordo em três pontos:

      1) Depois que uma grande tragédia acontece é muito fácil argumentar que poderia ser evitada. Mas a realidade não é bem assim. Se fosse, não existiriam desastres aéreos, incêndios, etc. Talvez, se não tivesse acontecido o acidente da P36, ainda hoje a plataforma funcionasse da mesma forma. Depois que acontece tudo muda, os mecanismos de segurança são reforçados, etc. Faz parte do processo de aprendizado. Agora dizer que o pessoal e/ou orçamento vai ser reduzido caso um outro presidente seja eleito aí já é terrorismo puro e simples.
      2) Errei no cálculo. Na verdade o orçamento de R$ 80 bilhões corresponde a 15% do valor de mercado da Petrobrás. Os 11% que falei no post anterior corresponde ao orçamento de R$ 65 bilhões de 2009, quando o capital da empresa era um pouco inferior. Ou seja, uma empresa que recebe tal injeção de recursos está destinada a ser a maior empresa do mundo em pouquíssimo tempo. Os méritos dos administradores, claro, ficam bastante reduzidos.
      3) Um dos poucos consensos que existem nesta polêmica sobre as privatizações é que a administração privada é mais eficaz. São várias as razões que concorrem para isso, dentre as quais a redução dos níveis de corrupção. Claro que vamos encontrar inúmeros casos que dizem o contrário e vice-versa, mas, no geral, a lógica é essa. Como vc mesmo disse “o loteamento de cargos faz parte do aliciamento das ‘bases’” e esta, infelizmente é a realidade atual (e de pelo menos algumas décadas à frente), pois a corrupção infelizmente vai além dos políticos. Ela começa na falta de educação da sociedade. Esperar que a polícia ou o MP resolva tais problemas é ser muito otimista. Infelizmente perdi tal otimismo há muito tempo.

  8. livio
    novembro 4, 2009 às 7:55 am

    Coincidentemente, o mesmo tema acaba de ser discutido pelo Aion, e com argumentos bastante semelhantes.

    http://www.blogdoalon.com.br/2009/11/conversa-firme-acao-nem-tanto-0411.html

    Caso a Vale tivesse sido vítima de uma má gestão, ou de ataque especulativo, como a Sadia, ou até mesmo a Votorantim, ambas no mercado de derivativos, talvez o governo federal tivesse entrado firme e eventualmente até, com aquisição de parte majoritária das ações com direito a voto.

    Como não houve nada disso, a coisa se manteve “inalterada”. Até por que, empresários também são brasileiros, e muitos deles são eleitores e apoiadores de primeira hora do governo federal.

    • novembro 4, 2009 às 8:14 am

      Bom, isso indica que nossas discussões estão no caminho certo. Todos têm um pouco de razão, daí porque hoje fujo dos extremismos. O artigo citado é muito esclarecedor e equilibrado, como deveriam ser as discussões sobre um tema tão polêmico.

  9. Ana
    outubro 22, 2010 às 11:14 pm

    Um dos melhores textos que já li sobre a evolução da Economia brasileira. Essa demonização do governo anterior se faz ainda mais presente hoje em época de campamha eleitoral onde surge tudo tipo de sujeira e mentira. Algo muito eficaz, pois as pessoas simplesmente não conferem as informações e fazem comparações descontextualizadas… Ficam impressionadas com os dados e ponto. Eu recebi hoje um e-mail que muito me irritou: ele trazia uma tabela comparativa dos governos Lula e FHC. Eu estava respondendo a pessoa que essa não era uma comparação justa pois FHC e Lula encontraram duas realidades bem diferentes quando assumiram a presidência. Resolvi então buscar dados na internet sobre a situação econômica na década de 90 para reforçar minha opinião e econtrei o sua página. Parabéns pelo texto.

  1. setembro 29, 2009 às 10:59 pm
  2. maio 21, 2010 às 10:25 pm
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